sábado, 20 de julho de 2019

Sobre a necessidade de homões da porra

O bode que eu tenho dessas problematizações sobre vidas de celebridades é que nossas discussões estão sendo pautadas pelos sites de fofoca e programas de entretenimento. A criação aos padrões estabelecidos ou a criação de novos modelos partir de pessoas públicas, cujas vidas a maioria de nós conhece a partir do filtro de suas assessorias de comunicação.
Critica-se a imprensa que insiste em nos empurrar um modelo de feminilidade "bela, recata e do lar", mas insistimos no mesmo erro ao procurar modelos de masculinidade ideal em atores globais ou hollywoodianos. Se o pessoal é político, nosso modo de pensar a política continua sendo de cima pra baixo, o que não é apenas estéril, como é perigoso.
Seja nas questões privadas ou na política institucional o debate permanece centrado no indivíduo. A direita está sabendo se aproveitar disso e na mentalidade liberal e meritocrática que a própria esquerda reproduz e não se dá se conta, porque é arrogante e se recusa fazer autocrítica.
De fato, é mais fácil insistir num discurso catastrófico e chantagista de que a esquerda precisa se unir em torno de uma candidatura salvadora que pensar outras formas de atuação política que escapem aos modelos já estabelecidos. O problema, ao meu ver, não é quem é o homão da porra, mas insistir que precisamos dele, seja lá quem for.

P.S. Escrevi esse texto há um ano. Era sobre o marido da Fernanda Lima e acabou virando outra coisa. Hoje as lembranças do FB me mostraram ele e já que resolvi reativar esse blog, vou aproveitar e colocar textos antigos que ficaram perdidos na TL.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

A tour da beleza nunca será feminismo, eu tô nisso pelos likes

Eu ando meio obcecada nessa tour da beleza. Academia, cabelo, skin care. Em parte isso tem a ver com um imenso cansaço que eu tenho sentido do Brasil, da política e da vida em geral. Seguir rotinas de cuidados com a aparência me tira a vontade de chorar debruçada sobre os rejuntes do banheiro porque eu perdi o controle da minha vida.

Mas isso tem a ver também com o fato de que alguns meses farei 40 anos. Existe pressão estética relacionada ao envelhecimento, mas existe um peso que é viver em um mundo obcecado por juventude, sobretudo na área profissional que me sobrou, a comunicação. Na minha idade as pessoas nessa área são chefes. Eu estou num limbo de ter muita formação acadêmica e ser uma estagiária de 40 anos.

Eu nunca quis ser chefe na minha vida. Eu quis durante um tempo ser jornalista/escritora. E durante cinco anos incríveis eu fui a professora que eu queria ter tido na faculdade. Eu esperava fazer isso até morrer. Eu me imaginava pais e mães ex alunos perguntando pros filhos se eu ainda dava aula e se continuava doida. Eu pretendia ser uma professora velhinha surtada e treteira, mais ou menos do jeito que sou hoje, só que com um pouco de sabedoria.

Mas as coisas mudaram, o Brasil mudou e eu tenho vivido de frilas e contratos de trabalho precários desde então. Tentei uns concursos e não passei, mandei uns currículos e não me chamaram. Tudo bem, a vida é assim, não tá fácil pra ninguém, a gente se adapta. Eu já aceitei que a minha vida é assim agora, eu tenho outra profissão e contatos de pessoas que me mandam jobs. Mas é osso, sabe? Eu queria estar estabilizada ou pelo menos pelo saber se eu vou ter trabalho no mês que vem.

Eu brinco que eu sou o clichê da garota nerd que quando bota um batom e tira os óculos vira um mulherão, mas continua desastrada. Eu acho que o clichê cinematográfico pega a gente porque vende essa ideia de que se você ficar linda a sua vida vai mudar e tudo vai dar certo. Na falta de perspectivas e ausência total de vontade de discutir política na Internet eu me entrego ao cuidado com a aparência porque se tá tudo ruim eu preciso pelo menos me sentir gata, sabe.

Mas isso me deixa sempre um gostinho amargo, porque fico pensando no quanto é perigosa e recorrente a prática de indivíduos e marcas de politizar isso criando chavões como auto-cuidado e auto-amor e revestir isso de um discurso feminista. Mas esse é assunto pra outro textão.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Vivemos em uma sociedade que espera que adolescentes se portem como mulheres adultas e que mulheres adultas conservem a aparência de adolescentes. A consequência é que lidamos muito mal com o envelhecimento. O nosso e os dos demais.
Pensamos no envelhecimento parte da vida, mas como mera questão de aparência. Quando dizemos que alguém não aparenta a idade que tem estamos falando de rugas e quilos e não de maturidade, saúde, experiências vividas. Quando transcendemos a aparência, o assunto vira uma lista de tarefas que disseram que teríamos que cumprir, como casar, ter filhos.
Agimos como se as possibilidades da vida fossem acabar aos 30 anos, como se tudo tivesse que estar definido nesta idade. Não é difícil compreender porque pessoas mais jovens são tão ansiosas quanto à passagem do tempo e porque pessoas de trinta e poucos estão frustradas e deprimidas por não terem riscado todos os itens da lista de requisitos de como ser um adulto funcional padrão.
Esquecemos é que a vida pode terminar a qualquer momento. Toda vez que nos despedimos de uma pessoa querida pode ser a última vez que a vemos e pode ser a última vez que ela nos vê. Esquecemos também que a vida pode ser longa e que podemos ser para quem chega, a memória dos dias e daqueles que foram.
Hoje faz dois meses que eu perdi um amigo muito querido. Desde que ele se foi eu tenho tentado viver tendo o envelhecimento no horizonte, mas a fragilidade da vida levada no bolso. O passado me serve de memória afetiva e para aprender com meus erros. Mas é daqui pra frente. Sempre

sábado, 30 de dezembro de 2017

Cinco Dicas Para Parar de Ser Trouxa

Migas, vou dar um presente pra vocês usarem em 2018 que são essas Cinco Dicas Para Parar de Ser Trouxa, porque é impressionante o quanto as pessoas mentem pra si do mesmo jeito quando o assunto é macho.

1- "Quando a mulher quer ela muda um homem" é a mentira mais tóxica que existe e que só serve pra aprisionar mulheres em relacionamentos abusivos. Pare de achar que você é heroína e de querer encarar bucha só porque é difícil. Monte um quebra cabeça de duas mil peças ou escale uma montanha se o problema é falta de desafio.

2- Se a pessoa não está interessada ou não demonstra ter tanto interesse quanto você não caia nos dois extremos na trouxidão. São eles: 1) achar que é culpa sua 2) achar que com você será diferente. As pessoas nem sempre se interessam na mesma intensidade ou elas perdem o interesse antes. Isso é normal e, a menos que seja o primeiro crush da sua vida, você já passou por isso antes sendo a pessoa que não tinha ou perdeu o interesse. Aceita.

3- A culpa do cara ser um embuste é dele mesmo e da sociedade que passa pano pra machista. Não é sua e não é das outras mulheres que são fáceis ou são otárias. Inclusive quando você culpabiliza outra mulher pela conduta do seu macho, desculpa ser a pessoa que vai te avisar, mas você também tá sendo otária, miga. Porque não é a outra mulher que tá sendo pilantra contigo, é ele.

4- Se arrastar e se humilhar não traz ninguém de volta. Traz arrependimento, vergonha alheia e suas amiga dizendo que "não te avisei? " ou "se você continuar com ele não serei mais sua amiga porque não tenho amiga burra".. Como diz a Frozen, lerigou, miga. Isso não te pertence mais. Aceita e desapega.

5- Exceções geralmente servem para confirmar os padrões. Se você conhece alguma lenda urbana de um cara comprometido que terminou com a companheira pra ficar com a outra, passou quatro anos sem assumir uma relação e depois caiu em si e virou um marido exemplar, ou ainda, conheceu um piranho que quando "encontrou o amor" virou um cara que nem olha pro lado, lembre-se das dezenas de casos que você conhece de caras que ficam anos enganando esposa e amante(s), nos que passam anos enrolando alguém sem assumir nada até que a mina se cansa (e logo depois apareceu namorando sério) ou nos caras que nunca respeitaram seus acordos de não ficar com outras pessoas. Não caia na caia na cilada de achar que com você será diferente porque ele continua sendo o mesmo. Acredita na Marília Mendonça:ele não vai mudar.

BÔNUS 1: Se você não está sendo trouxa no momento, não pense que você é invulnerável. Isso não é algo que você possa prever, é algo que fazem com a gente e infelizmente nem mesmo quilos de feminismo conseguem retirar totalmente essa socialização românticadas mulheres héteras.

BÔNUS 2: Se sua amiga estiver sendo trouxa não a chame de burra ou a abandone. Ela vai precisar de apoio quando a casa cair e de incentivo pra quando decidir deixar o embuste. Esteja lá pra ela como ela ou outras estiveram lá quando você precisou.
P.S.Post heteronormativo porque é a experiência que eu tenho, não saberia escrever pra não-héteras e, além disso, não é meu lugar de fala.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Breve história do mundo

Era uma vez Deus. Um dia, cansado de tanta pasmaceira Deus criou o universo, as coisas e as criaturas. Tudo exatamente do jeito que é hoje, com propriedade, com mercado, com Estado, com polícia, cadeia e pessoas dizendo que desde que o mundo é mundo as coisas são assim e nunca vão mudar.
Fim.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sobre a série Narcos

Tem uma novela no Netflix chamada Pablo Escobar, o patrão do mal. A perspectiva é bem diferente, já que na versão do Padilha se fala do ponto de vista da DEA e na produção colombiana há uma ênfase na política local. A narrativa de Narcos, não linear e cheia de imagens de arquivo, além dos atores bonitões, é bem mais atraente. A colombiana é melodramática e cafona. Gosto porque sinto mais proximidade, me parece mais sulamericana.
Há incorreções históricas em ambas, mas o que de cara me chamou atenção é como as mulheres são retratas. Na novela colombiana, embora sejam minoria na trama, as mulheres são sujeito. A mulher que introduziu Pablo no tráfico de cocaína, Griselda Blanco nem é mencionada em Narcos; a mãe e a esposa do traficante são duas criaturas passivas que praticamente não têm voz e de modo geral as mulheres, como em Tropa de Elite, estão ali ou para: ser objeto sexual, gerar filhos, pra encher o saco, pra fazer besteira - que culmina em estupro e/ou morte.
Longe de mim querer protagonismo feminino no crime organizado. Mas é bem chato perceber que estamos em 2015 e as narrativas da cultura de massa insistam que tudo o que acontece no mundo é obra/consequência da ação de homens enquanto nós estamos lá apenas para servi-los.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Deixem as minas malhar em paz

Eu vou à academia no horário de almoço, que é quando tem menos gente. Eu uso legging com uma camisetona larga pra chamar menos atenção possível. Mas hoje eu estava fazendo uma sequência de exercícios que exigia que eu ficasse de quatro no colchonete e eu não consegui terminar porque eu não tinha como me posicionar sem que desse ângulo pra três machos ficarem secando meu rabo. Desculpa se o meu linguajar ofende. Eu tô mais ofendida de não poder me exercitar em paz. Tem horas que é impossível não ser misândrica. 

Antes que alguém revire os olhos pensando: afe, acha que todo mundo tá olhando pra ela eu devo dizer que não é elogio nenhum ter seu corpo encarado por estranhos quando você está tentando se exercitar. Isso não faz com que eu me sinta bonita. Ao contrário, a gente se sente um lixo. Porque não precisa estar dentro dos padrões do que a sociedade considera bonita. Você é mulher e isso faz com que os homens se sintam no direito de te olhar como um pedaço de carne e não tenham a decência de disfarçar. Pelo contrário. É tão incômodo que você está de costas e sente que estão te comendo os olhos. Comendo, não. Violando.

A situação foi tão incômoda que eu acabei pedindo que a professora mudasse meu treino pra que eu não tivesse que ficar naquela posição de novo. Eu sei que eu estava num ambiente em que nada me aconteceria, eu sei que olhar não tira pedaço. Mas a raiva de saber que tem um estranho olhando pra você ostensivamente num ângulo e numa posição que em geral as pessoas só tem acesso em momentos de intimidade era tanta que eu não consegui terminar a série. As academias são cheias de anúncios para guardarem os pesos e utilizarem toalhas. Deveria ter cartazes para educar os homens também. É por causa disso que existem academias só para mulheres. Os homens tornam a vida tão insuportável que a gente tem que se cobrir e se auto-segregar.

Uma vez eu falei sobre assédio num post no Facebook e um amigo, que eu acredito que é uma pessoa bem intencionada, comentou: veja pelo lado bom, pelo menos você ainda chama atenção. Eu respondi muito educadamente sobre o quanto esse tipo de ideia é cagada. Eu tenho 35 anos, então ainda chamar atenção nessa idade, numa sociedade obcecada pela juventude, deveria ser uma vantagem. Continua-se acreditando que o único objetivo da vida das mulheres é atrair atenção dos homens. A última coisa que uma mulher quer é chamar atenção de estranhos. Ao contrário. A gente se cobre porque se culpa, porque sabemos que se formos vítimas de algum tipo de violência vão apontar o dedo pra gente e não pro agressor. Ser mulher é viver com medo.

Eu sou uma mulher vaidosa e em muitos momentos bem perua. Gosto de usar vestidos, decotes, mostrar as pernas, posto fotos em que me acho gata. Mas nas fotos que posto sou eu quem escolhe o que mostrar e de que ângulo eu quero que me vejam e quando eu me visto com roupas que mostram meu corpo estou fazendo isso pra mim, não pros outros. Não é possível que não dê pra entender a diferença. Mesmo assim eu tenho que pensar mil vezes antes de sair de casa porque se for pegar transporte público eu acabo pondo um short por baixo ou pondo uma calça).

Eu que tinha acordado de ótimo humor, saí da academia espumando de ódio. E triste, porque fui eu que tive que mudar, já que eu não poderia bater em cada um daqueles caras, como era minha vontade. Porque um dos motivos pelos quais eu malho é justamente ser forte. Porque se um cara tentar encostar a mão em mim sem o meu consentimento ele vai apanhar. Mas tem essas situações em que a pessoa não te toca, mas é abusiva mesmo assim. E quanto a isso a gente não sabe o que fazer, além de vir pra casa chorando e se rematricular no muay thai. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rock, machismo e vergonha alheia

Uns tempos atrás eu andava ouvindo Beyoncé no repeat quando meu marido me perguntou se eu tinha deixado de ser roqueira. Achei engraçado, mas depois comecei a pensar sobre isso. Durante muitos anos eu repeti que minha vida havia sido salva pelo rock'n'roll. Em certa medida, ela foi mesmo. Meu gosto musical definido muito cedo (em torno dos 10 anos), alinhado com a atitude rebelde e contestadora que aparentemente vinha no pacote, me ajudou a definir um bocado de coisa na vida. Do meu estilo de me vestir ao tabagismo adquirido para compor personagem - é ridículo, eu sei, mas em minha defesa devo dizer que era adolescente. Gostar de rock me fez me empenhar para aprender inglês, o que mais tarde serviu pra arrumar meu primeiro emprego, aos 14. Minha aproximação com o anarquismo, como pra tantas pessoas que conheço, se deu por meio do punk. O rock me deu toda uma sociabilidade, amigos, amores e momentos incríveis ao som de músicas idem.

Resumindo, posso dizer sem exagero que minha vida seria bem diferente se não fosse roqueira. Porém, de uns tempos pra cá comecei a me abrir para outros estilos musicais que antes eu não me interessava ou tinha preconceito, como o pop. Sempre gostei de uma diva, seja ela uma cantora de jazz ou uma performer como Madonna, Beyoncé e cia. Mulheres fortes sempre me fascinaram, mas antes eu tinha vergonha de dizer que gostava de algumas coisas. Hoje eu me dou conta que os motivos estavam diretamente relacionados à minha formação roqueira e que podem ser resumidas em dois pontos:

1- O rock é extremamente machista
2- O meio roqueiro é tão arrogante que chega a ser ridículo

Rock é um estilo musical cujo protagonismo é masculino. Claro, há movimentos como o Riot Grrrl onde predominam bandas formadas por minas e existem mulheres maravilhosas em bandas clássicas - como Joan Jett, Debbie Harry, Kim Gordon, Kim Deal, Patti Smith, Nico, mas os homens são dominantes.. Mas faça uma lista das suas dez bandas preferidas e veja quantas delas possuem pelo menos uma integrante ou são formadas por mulheres. E a resposta pra isso não é difícil de chutar: no imaginário coletivo rock é coisa de macho.

Por que não colocar uma mulher estuprada na capa de um disco?
Nem vou entrar na discussão sobre misoginia e objetificação das mulheres no rock porque isso aí rende mestrado e doutorado (e se for problematizar classe, raça e orientação sexual porque aí é que danou-se). Na cultura roqueira as mulheres aparecem predominantemente como objeto, não como sujeito. Tem Hendrix nesse clipe assustador dizendo pra uma mulher que tá cansado de perder o tempo dele e que ela será toda dele. Há toda uma lista de canções, videoclipes, capas de discos em que as mulheres são endeusadas, infantilizadas, violentadas ou são apenas objeto decorativo. Quando se fala em sexo, drogas e rock'n'roll esse sexo não é apenas hétero - o que em si já seria um problema - é um sexo onde a mulher predominantemente é passiva.

Quando era adolescente os Raimundos estouraram com disco cheio de músicas horrorosas e com um hit dizendo que queria ser o banquinho da bicicleta pra ficar perto da vagina. Os Garotos Podres tinham uma música sobre um cara que era procurado pelo estupro "de uma mina cabaço" e isso não era condenado moralmente, ao contrário, ele era o cara "mais punk que eu já conheci", dizia a letra. Hoje eu me dou conta do quanto tudo isso é ofensivo e problemático pra pessoas nessa idade, quando sua personalidade está em formação e você não tem muito filtro. Porque adolescentes querem aceitação e você não quer ser a chata que reclama da letra da música, que não tem senso de humor. Ironicamente a subcultura em que me refugiava para poder ser eu reproduzia os mesmos valores machistas e misóginos dos quais eu tentava fugir. Quem me conhece sabe o quanto eu sou perua e aprecio uma montação. Mas durante muito tempo eu evitei o divonismo porque tinha medo que me achassem fútil. Um dia, quando eu já havia superado essa bobagem, um rapazinho com quem eu estava flertando numa festa chegou em mim e disse que eu era "bonita demais" pra gostar daquele tipo de música. Ele achou que tava me elogiando. Eu respondi que ele era bonitinho, mas ordinário e fui pegar outro. Não sou obrigada.


As mulheres na sociedade em geral já não são levadas a sério e no rock não é diferente. O tempo todo você pode ser intimada por alguém que nem te conhece para provar que você conhece a música, que merece frequentar determinado espaço ou usar a camiseta da banda X. Sim, você pensa, era só o que faltava, ter que fazer vestibular pra ouvir música (o que nos leva diretamente ao ponto 2 deste texto). Era o que eu fazia. Talvez seja o que várias meninas jovens estejam fazendo agora: estudando bandas e discografias pra provar que são boas roqueiras. Embora rapazes também façam isso (tenho um ex que chega ao cúmulo de saber aniversário e signo dos integrantes de sua banda preferida), dificilmente um cara irá desafiar outro homem no rolê a dizer se ele pelo menos conhece algum disco da banda cuja camiseta está usando, como ilustra esta matéria imbecil.


Diante de tudo isso não é difícil entender porque quando mais feminista eu fui ficando, mais me distanciei do rock. Em outras palavras: foi me dando bode. Toda vez que eu me lembro que ao arrotar meu conhecimento musical pra conseguir aprovação de homem ouvi: "nossa, você manja mesmo" e fiquei feliz com isso sinto uma vergonha terrível. Hoje eu tenho uma bolsa com estampa dos Ramones (uma das minhas bandas preferidas) e se alguém vier me inquirir sobre meu conhecimento sobre eles eu vou mandar à merda e dizer algo como "não tenho que te provar nada, otário". Sim, porque se tem outra coisa que me deu e me dá um bode gigantesco é que roqueiros se supõe superiores ao resto da humanidade simplesmente por gostar de rock quando são tão tapados, preconceituosos e superficiais quanto todo o resto.
Cê jura, fio?

Existe um combo roqueiro padrão, que é o fã de rock-cinema-séries. A pessoa raramente lê um livro/jornal/site de notícias, viu Laranja Mecânica e meia dúzia de filme cult e se acha o suprassumo da intelectualidade porque não assiste BBB ou não ouve funk. Não aguento. Tudo bem, é ok ser desse jeito quando você é adolescente porque  nessa fase se espera que sejamos ridículos, mas permanecer assim depois de uma certa idade não é legal, migs. Porque não ver tevê aberta não te faz intelectual, assim como ouvir funk não faz de ninguém um alienado. Semanas atrás foi Dia do Rock e ainda tem homem de 40 anos dizendo "isso é rock de verdade, não essas porcarias que vocês ouvem". Ou "camiseta dessa banda virou modinha". Ou conhecendo mais sobre a música e cultura estudunidense/britânica (porque são as pátrias do rock) e nada de América Latina. Não, você não é obrigado a gostar de cultura brasileira ou latina se não se identifica com ela, mas seje menas, né, colega? Isso não faz de você uma pessoa mega culta de gosto ultra refinado e todo mundo que não compartilha deles um idiota.

Para que tá feio, migo.
Outro dia vivi uma situação que ilustra tudo o que expus até agora. Eu estava numa festa na casa de uma amiga e alguns dos convidados (homens) começaram a colocar música no Youtube na TV da sala (Bowie, Joy Division, The Cure, Smiths, artistas que eu particularmente gosto bastante). Eu estava mais interessada em conversar e nem me liguei no som, até que uma hora uma amiga começou a cantar esta música e tivemos a ideia de colocar o clipe pra dançar. Os caras estavam há horas comandando o som, mas como já estava meio vazio a gente achou que não teria problema dançarmos um pouquinho. Mas é claro que teve. Vejam a ironia: três mulheres que esperaram horas pra poder colocar uma música (cuja letra é precursora de toda uma onda feminista que se manifesta hoje na música pop) serem censuradas porque um cara (que tava ouvindo Joy Division uma hora antes) que se deu o direito de dizer que mulher controlando o som não escolhe música que preste. Claro que deu barraco, porque se tem uma coisa que eu não faço mais a essa altura da minha vida é engolir desaforo de macho. E claro que ficou feio pra mim, pra mulher barraqueira que poderia ter ignorado e não para o machistinha que poderia ter optado por calar a boca.

Na roqueiragem com meus amigos 
Respondendo à pergunta que meu marido me fez naquele dia, não, não deixei de gostar de rock (a título de curiosidade eu não sei qual o meu disco preferido dos Ramones porque não consigo decidir entre o primeiro, o Rocket to Russia, Road to Ruin, Mondo Bizarro e End of The Century porque eu amo muito essa banda). Mas penso é necessário pensar criticamente o mundo que a gente vive, a começar pelas coisas que a gente gosta. Senão fica fácil demais, não é, mes amis?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especial Dia das Mães: Direito ao Aborto


Dia das Mães está chegando e em breve teremos uma enxurrada de textos sacralizando a maternidade e dizendo que esta é a maior alegria que uma mulher pode ter na vida, que você só se realiza como mulher quando se torna mãe e mais um monte de bobagem que reduz a existência das mulheres a algo semelhante a uma incubadora. 

Em primeiro lugar, acho que ter um filho deve ser uma alegria imensa, independente se você o gerou ou não. Gosto muito de criança, acho lindos, foftinhos e me divirto muito brincando com elas. Talvez eu tenha um ano que vem. Talvez eu não tenha nunca e isso não é da conta de ninguém. O que realmente me incomoda é esse bullying da maternidade compulsória, a ideia de que uma mulher só se realiza sendo mãe. Essa pressão social possui um lado extremamente perverso, que é a criminalização da mulher opta interromper uma gestação indesejada. Por isso eu decidi escrever este texto, pra lembrar que a maternidade deve ser um direito, nunca uma imposição da sociedade.

Eddie Vedder, seu lindo!
Sou feminista, logo sou uma militante pro-choice. Isso quer dizer que eu sou a favor da legalização do aborto (feminista pro-life é tipo anarcocapitalista: uma contradição em termos). Legalizar o aborto não quer dizer que as pessoas será obrigadas a abortar, isso quer dizer que a mulher que optar por interromper a gestação poderão fazer isso com assistência médica adequada. Mas antes que você comece a me xingar dizendo que eu não tenho respeito pela vida humana e dizer que as mulheres que abortam são umas egoístas, uma advertências: não adianta falar no caráter sagrado da vida e dizer que se a pessoa não queria ter engravidado ela simplesmente não deveria ter feito sexo/usado camisinha. Primeiro porque religião é uma convicção pessoal e ninguém tem certeza que existe alguma coisa além disso aqui, segundo porque métodos contraceptivos falham. Esse não é um debate sobre religião, nem sobre moralismo. Este é um debate sobre saúde pública, portanto sobre política.

Aliás, eu não boto fé em quem fala que a vida é sagrada e tá de boa com matar animais pra comer,
explorar os recursos naturais do mundo à exaustão pra manter seus hábitos de consumo, passa reto por moradores de rua e acha que bandido bom é bandido morto. Se for pra fazer discurso moralista sobre o quanto a vida é sagrada vamos mostrar o mínimo de coerência, como frisou o George Carlin nesse vídeo.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto o fazem defendendo o direito da "criança". Criança, meus amigos, é quando o feto já tem condições de sobreviver fora do útero. Antes disso, no estágio embrionário, o que temos são células que poderão ou não formar uma criança (e taí o número de abortos espontâneos no primeiro trimestre altíssimo para comprovar que nem todo óvulo fecundado é viável). A maioria dos abortos é realizado antes da formação do feto e do sistema nervoso central. Essas coisas que circulam pela Internet com fetos pensantes sendo abortados depois de completamente formados é uma mentira propagada por grupos pro-life.

"Ain, mas é fácil ser a favor do aborto se você já nasceu". Bom, se eu não tivesse nascido eu não seria contra nem a favor de nada, porque eu simplesmente não existiria e eu não sei você, mas eu não me lembro de muita coisa de quando eu estava na barriga da minha mãe, porque, bem, eu ainda não era uma pessoa. E não é fácil ser a favor da legalização do aborto, porque é exaustivo repetir de novo e de novo e de novo e ter argumentos racionais que são rebatidos com ignorância sobre processos biológicos, moralismo, fundamentalismo religioso e outras falácias.
Esses dias eu ouvi dizerem que se a mulher não quer ficar grávida "que não trepe". Bem, esse tipo de argumento é tão medieval que dá medo de pegar peste negra, mas eu fico pensando na cara de pau que algumas pessoas têm de achar que todo mundo deveria agir de acordo com que elas acham certo. Eu por exemplo acho que as pessoas deveriam pensar antes de falar besteira, mas nem por isso eu defendo que o Estado amordace quem não sabe a diferença entre argumentar e relinchar.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto aceitam que ele seja realizado em caso de estupro. Isso só mostra que na verdade as pessoas não estão preocupadas com a "vida" e em decidir sobre o corpo das mulheres e sobre sua sexualidade. Foi estuprada? Beleza, a gente deixa. Gozou, então tem que levar adiante uma gestação indesejada que é pra aprender a "ser responsável". Isso só mostra o quanto a nossa sociedade não vê as mulheres como seres autônomos e sim como seres nos quais os corpos são um imenso penico para a cagação de regra coletiva. (Mas há pessoas que são contra o direito ao aborto em qualquer circunstância e há um projeto de lei rolando que quer impor uma violação coletiva às mulheres do Brasil. Leia mais aqui e aqui).

Acordem, o direito ao aborto existe para quem pode pagar por um procedimento feito por um médico, numa clínica, com todas as condições de segurança e limpeza. As mulheres sempre praticaram abortos e continuarão praticando, a diferença é que as mulheres pobres vão fazer isso de forma precária. A cada dois dias morre no Brasil uma mulher em decorrência de abortos realizados em más condições. Ser contra legalizar o aborto não é ser pró-vida, é ser contra essas mulheres. Defender a legalização do aborto é uma questão de humanidade, como mostra a experiência no Uruguai. É também uma questão de respeito pelas mulheres, que devem ser as únicas responsáveis por decidir quando e se tornarão mães.

Dito isto, feliz dia para aquelas que ESCOLHERAM ser mães <3



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Enquanto isso, na sala da justiça...

Textinho dessa que vos escreve que saiu esta semana no site da Carta Capital http://www.cartacapital.com.br/sociedade/por-um-feminismo-piadista-4206.html

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tamanho G. De gostosa.


No fim do ano passado eu comprei meu primeiro vestido tamanho G. É um vestido vermelho bem mulher fatal, tipo de roupa que vai ficar bonito justamente se a pessoa que o usar tiver curvas. Mas por algum motivo, quem o fabricou decidiu que há um tamanho máximo de corpo pra ter direito a se vestir de mulherão.

Ontem eu vi na home do UOL uma galeria em que se podia votar nos melhores corpos do verão. Todas as mulheres da galeria eram magra ou muito malhadas estilo Panicat, não raro lipadas e/ou siliconadas. Só tinha duas negras, que não eram brasileiras. Na vida real quantas mulheres você conhece que se parecem com essas musas da mídia? Eu conheço pouquíssimas, mas conheço muitas mulheres que são bonitas  e atraentes, em todas as cores e formas e que no entanto não param de se torturar pra se adequar a esses padrões.

Como é que a gente muda isso? Se aceitando. Como essas garotas aqui.

 "Ah, você está falando isso porque você é bonita". Sim, eu gosto muito da minha aparência e estou bem satisfeita com ela. Mas eu acho que fiquei muito mais bonita - e feliz - depois que eu parei de achar que tinha que vestir 38, esticar meu cabelo com produtos tóxicos e melecar minha cara com produto caro do que quando eu tinha 20 anos e tinha corpo de Trip Girl. Eu aprendi a me amar. Não foi a idade, não foi a análise. Foi o FEMINISMO que me deu isso.

Talvez eu tivesse uma crise aos 18 anos se eu soubesse que depois dos 30 eu estaria vestindo G. Mas eu descobri com o feminismo que não é o meu corpo que está errado. É a indústria da moda, é a falta de diversidade de corpos femininos na mídia em geral. Meu G é de gostosa. E eu estou muito feliz com ele, obrigada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Vamos parar de falar merda? - Mulher não é amiga de mulher

Você já deve ter ouvido a “piada”. Duas mulheres se encontram. “Oi, amiga! Como você está linda! Emagreceu! Nossa, vamos nos ver”. No minuto que elas se separam elas pensam: “odeio essa vaca”. Na cena seguinte dois homens se encontram: E aí, viado? Fala, seu filho da puta! Ambos vão embora pensando: “eu adoro esse cara”. Moral da história: mulheres são falsas, não são amigas umas das outras e a cortesia que trocam serve para mascarar essa competição. Amizade verdadeira existe entre homens, que se insultam gratuitamente como forma de diversão.

Eu não ouvi isso nem uma nem duas vezes. Ao vivo em conversas de amigos de ambos os sexos, compartilhado em redes sociais. Gente, vamos parar de falar merda?
 
Desde que nascemos somos bombardeadas com o mito da competição entre as mulheres. A Rainha Má mandou matar a Branca de Neve porque não poderia existir mulher mais bela. A madrasta e as irmãs da Cinderela não deixaram que ela fosse ao baile porque era mais bonita e poderia monopolizar as atenções do Príncipe. Em linhas gerais, todas essas histórias de princesas repetem o mesmo mantra: as mulheres são inimigas entre si. Um mito que é reatualizado na publicidade, nas músicas dirigidas às invejosas, que falam de recalque.

Eu não sei em que planeta as pessoas que repetem essa história vivem. Mas vamos lá. Pense na sua mãe, na sua irmã, na sua companheira, nas suas primas, amigas, professoras, colegas de trabalho. Você realmente acredita que nenhum possui um laço de amizade verdadeiro? Que estão todas ocupadas arquitetando planos malignos para derrubar umas às outras? Acho que não.

Eu sempre tive mais amigos homens que mulheres. Mas sempre tive laços de amizade profundos com minhas amigas, com mulheres da minha família. Relações que não se perdem com o tempo ou distância. E eu sei que não sou exceção. Há coisas que eu só me sinto à vontade de conversar com outra mulher, um tipo de conforto, aconselhamento e carinho que eu só encontro nas pessoas do mesmo gênero que eu. Há uma intimidade e um prazer de estar entre mulheres que todas nós sabemos do que se trata, ainda mais porque vivemos num mundo carente de espaços femininos exclusivos. Sim, há mulheres que agem dessa forma competitiva. Mas isso não é inato, isso é ensinado e dá trabalho pra se livrar. Mas não é da natureza feminina e não é geral.

Aliás um grande favor que poderíamos fazer a nós mesmos seria abolir as generalizações. Homem é tudo igual. Mulher é tudo igual. Vocês homens isso, vocês mulheres aquilo. Apenas parem! Primeiro porque não é verdade, segundo porque é ridículo. Aliás, a parte da piada que supostamente elogia os homens também é ridícula. É como se os homens fossem eternos garotos de 12 anos que se regozijam em xingar a mãe e chamar o outro de viado. Daí eles se despedem felizes do encontro porque encontraram quem brincasse com eles.

Sério isso, Brasil?

Então, aqui vai um pedido: vamos parar de falar merda? De reproduzir esse tipo de coisa? Nós estamos acostumados a repetir qualquer besteira sem muita reflexão. Aliás, estamos acostumados a viver sem muita reflexão, a fazer as coisas por inércia, porque é como todo mundo faz. O mundo muda quando a gente muda. E isso não está nas grandes rupturas. Isso está no cotidiano, está nas mãos de pessoas comuns, como eu e você.

Pensar não doi. Mudar também não.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Publiquei ontem um texto que fala da forma como a violência contra a mulher é banalizada em nossa sociedade. Hoje reproduzo o texto da irmã feminista Maíra Kubik, que narra de forma corajosa e em primeira pessoa a traumática experiência de ser agredida por ser mulher. No texto dela fica muito claro que a violência de gênero não está localizada em uma classe social ou a países subdesenvolvidos, que não é exceção e - o mais terrível - é que pode acontecer a qualquer uma de nós. 


Publicado originalmente em: http://mairakubik.cartacapital.com.br

A primeira vez que eu apanhei

Campanha "O valente não é violento", da ONU Mulheres
Campanha “O valente não é violento”, da ONU Mulheres
Eu nunca tinha apanhado na vida. Ao menos não literalmente. Foram 31 anos inocentes e imunes, interrompidos bruscamente por um tapa na cara.
Aconteceu em setembro, final do verão por aqui. Meus óculos de sol caíram imediatamente no chão e, por alguns segundos, eu perdi a referência de onde estava. Quando voltei a mim, minha primeira reação foi não ter reação. Lembro-me de permanecer atônita. Em seguida, virei a cabeça tentando localizar o sujeito, mas ele já havia sumido na multidão. Eu estava em uma esquina movimentada da cidade e fui pega completamente desprevenida.
Tomei o metrô tentando freneticamente devolver com os dedos as lágrimas que insistiam em cair de dentro dos olhos. Só conseguia pensar que eu era mulher, estava sozinha e vestia uma blusa regata. E que a combinação desses fatores poderia ter motivado aquele homem de vestimentas religiosas tradicionais. Quando abri a porta de casa, chorei até a exaustão.
Poucos dias depois veio a segunda agressão, dessa vez em forma de bofetada no braço. De novo, a sensação de perplexidade absoluta. E outra vez, perdi a pessoa para a multidão. Mas eu tinha então uma certeza: sim, eu havia apanhado porque era mulher. Afinal, aquele senhor que reclamava que as bicicletas estavam muito próximas da faixa de pedestres poderia ter agredido qualquer outro ciclista em volta, homem. E ele escolheu a mim.
Com uma semana de diferença, dois sujeitos absolutamente desconhecidos sentiram que poderiam bater em uma mulher na rua — eu — e assim o fizeram. Para eles, deveria ser algo ”natural”. Para mim, foi uma experiência muito traumática. A sensação de vulnerabilidade era tamanha que eu comecei a achar que eu poderia sofrer qualquer coisa de ruim, como por exemplo ser empurrada para baixo do trem quando ele estivesse chegando na plataforma.
Escrever sobre esses episódios por um bom tempo me pareceu impossível. Indizível. Faço agora por acreditar que compartilhar histórias como essa sempre ajuda a refletir sobre o quanto a violência contra as mulheres é estrutural dentro de nossa sociedade, atravessando todos os locais, situações, classes, idades e etnias.
Assim como aconteceu comigo, poderia acontecer com qualquer uma. E poderia ser bem pior: muitas de nós sofremos cotidianamente violências doméstica e psicológica, assédios moral e sexual, estupros ou somos assassinadas em decorrência do simples fato de sermos mulheres.
Vivemos em uma sociedade em que determinadas marcas e diferenças são utilizadas como pretexto para estabelecer uma hierarquia entre seres humanos. Assim como xs negrxs foram apartados na África do Sul a partir das mais absurdas justificativas, as mulheres são até hoje consideradas inferiores. Não são situações iguais, obviamente, mas a lógica implicada é a mesma. Em ambas, há um processo onde a desigualdade construída a partir de condições sociais, culturais e históricas adquire uma vestimenta de “natural”, como se sempre houvesse sido daquela maneira. O que está oculto, porém, é o verdadeiro sentido dessas relações de poder: o grupo que está em cima se apropria daquele que está embaixo.
Dentro dessa perspectiva, as mulheres são tomadas como um todo. Da mesma maneira como xs escravxs, elas não cedem apenas a sua força de trabalho, mas sim o seu indivíduo inteiro. Ao mesmo tempo e de maneira contínua estão presas à reprodução, à criação dxd filhxs, ao cuidado com xs idosxs e com o lar, à satisfação sexual do Outro, a fornecer-lhe conforto, apoio e equilíbrio psíquico e, finalmente, à ocupar posições menos importantes ou bem remuneradas no mercado de  trabalho.
As mulheres formam uma classe, apropriada privada — via casamento e/ou família — e coletivamente — por meio das igrejas, da vida comunitária, da família ampliada para além da célula inicial etc. E dentro desse sistema onde não detêm a propriedade sobre seu corpo e que são vistas de maneira indistinta como um “tipo” de gente ou coisa inferior, é “natural” que aqueles que as possuem sintam-se no direito de bater não apenas em suas mulheres como em quaisquer mulheres. Inclusive para lembrar-lhes, com alguma frequência, qual é o seu lugar dentro da hierarquia.
Como sairmos, então, dessa situação?
Bom, eu quero fazer um curso de defesa pessoal para tentar ter outras reações — e mais rápidas — do que simplesmente ficar chocada se algo assim acontecer de novo. Muitos grupos feministas e de mulheres oferecem oficinas desse tipo gratuitamente — mais um indício, aliás, do quanto nos sentimos agredidas.
A denúncia é também uma arma poderosíssima. No caso da violência doméstica, a Lei Maria da Penha é uma grande aliada para o agressor ser responsabilizado e punido. E campanhas de conscientização são sempre bem-vindas.
Mas, para mim, essa violência estrutural só vai acabar de fato quando não tivermos mais divisões em classes. Basta olharmos para países com índices muito melhores que os nossos em termos de distribuição de renda e educação e percebermos que, infelizmente, a violência contra a mulher, motivada por ela ser mulher, persiste.
Ou, em um resumo bem simplista, eu apanhei em Paris.

Em tempo: hoje, Dia Internacional dos Direitos Humanos e último dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, a ONU Mulheres promove uma blogagem coletiva da recém-lançada campanha O VALENTE NÃO É VIOLENTO. Este blog junta-se aos esforços para dizer: basta de violência contra a mulher!  Mais informações: https://www.facebook.com/ovalentenaoeviolento e http://www.ovalentenaoeviolento.org.br/

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Atitudes violentas contra mulheres são vistas como normais, mostra estudo

SÃO PAULO – Pesquisa do Instituto Avon e do Datapopular divulgada nesta sexta-feira revela que muitas atitudes violentas contra as mulheres são vistas pelo homem como naturais em um relacionamento.
De acordo com o levantamento, ao serem questionados diretamente se tiveram atitude violenta contra a parceira ou ex-parceira, apenas 16% dos homens admitiram que sim, o que equivale a 8,8 milhões de pessoas. Mas quando os entrevistadores listaram atitudes violentas contra a mulher, como xingar, empurrar, humilhar em público e ameaçar com palavras, 56% dos homens admitiram que já cometeram alguma dessas posturas.
- Para se ter uma ideia, apenas 35% dos homens acham que a mulher deve procurar a delegacia da mulher no caso de ele a impedir de sair de casa – disse Renato Meirelles, presidente do Datapopular.
A pesquisa revelou também que a maioria das atitudes agressivas foi cometida mais de uma vez e constatou que 41% dos brasileiros, entre homens e mulheres, conhecem ao menos um homem que foi violento com sua parceira, o que equivale a 52 milhões de pessoas.
O estudo mostra que muitas vezes o homem responsabiliza a mulher pela violência. E revelou que 29% deles disseram que “o homem só bate porque a mulher provoca”. E 23% afirmaram que “tem mulher que só para de falar se levar um tapa”.
De acordo com o levantamento, 12% dos homens acreditam que “se a mulher trai o marido ele tem razão de bater nela”.
O estudo mostrou que 67% dos autores de violência viram os pais discutirem na infância, enquanto entre os não agressores o índice é de 47%. Além disso, entre os agressores, 21% presenciaram uma agressão física. Este índice entre os não agressores foi de 9%.
Questionados sobre as razões de a violência surgir no relacionamento, os homens listaram ciúme, falta de respeito, de diálogo e de amor.
A pesquisa mostrou que 53% dos homens atribuem à mulher a responsabilidade pelo sucesso do casamento; 69% deles não concordam que a mulher saia com amigos sem sua companhia e 46% acham que é inaceitável que ela use roupas justas e decotadas. A mulher é vista como responsável pelo trabalho doméstico: 89% dos entrevistados disseram que é inaceitável a companheira não manter a casa em ordem.
Sobre a Lei Maria da Penha, 35% dos homens disseram que desconhecem parcial ou total a norma. E 37% afirmam que por causa da lei as mulheres os desrespeitam mais.
- É lamentável ainda vivermos numa sociedade machista, sexista e patriarcal em pleno século 21 – disse a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eeonora Menicucci.
A pesquisa foi feita entre agosto e setembro de 2013, em duas etapas. Na primeira foram entrevistadas 955 homens e 505 mulheres maiores de 16 anos de idade, em 50 cidades de todo país. Numa segunda etapa, foram ouvidos 13 especialistas e seis homens autores de violência.

Fonte: O Globo 

Publicado originalmente em http://oglobo.globo.com/pais/atitudes-violentas-contra-mulheres-sao-vistas-como-normais-mostra-estudo-10920770#ixzz2mzcJHUU0

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ufa, era trollagem!

Então o lançamento do Tubby era um hoax? Ufa, que bom saber. O aplicativo, anunciado como uma vingança ao bobinho Lulu, prometia revelar aos seus usuários detalhes íntimos sobre a conduta sexual das mulheres: se deu de primeira, se curte tapas, sexo anal ou se “engole tudo”. Os dois aplicativos levantaram intensos debates nas redes sociais e rodas de bar sobre privacidade, objetificação e machismo. Agora os criadores do app que nunca existiu dizem que se tratou de uma brincadeira, um protesto contra a objetificação e exposição da intimidade de outras pessoas. Ah, cês juram? 

Bom, primeiro deixa eu ir lá fora esmurrar meu saco de areia durante 15 minutos até passar a minha raiva porque era só o que me faltava ozômi querendo dar lição sobre objetificação e exposição da intimidade e tentar colocar tudo no mesmo balaio de gato, porque até onde eu chequei as vítimas dos revenge porn que tiveram suas vidas arruinadas eram todas mulheres. Que bom que não teremos mais aplicativo que de cara condenava as mulheres que se recusaram a participar acusando-as de ter medo do que haviam feito “no verão passado”! Agora voltemos à programação normal de ser objetificadas em tudo e o tempo todo, só que sem aplicativo.

Como se as mulheres nunca tivessem sido avaliadas de acordo com a sua conduta sexual, com o número de parceiros ou com as coisas que gosta de fazer na cama, como se não fossem divididas entre mulher pra namorar/casar e vadias/putas/pra uma noite só. Boqueteira, engole tudo, dá a bunda, deu de primeira, safada, todo mundo já pegou, rodada, vadia, piranha, depois reclama que é estuprada. Encalhada, mal-amada, mal-comida, isso é falta de pica, deve estar de TMP, deve estar menstruada, deveria ser estuprada. E aí gostosa! É gostosa, mas fica se exibindo, deve ser puta, não se vestiria assim se não quisesse chamar a atenção dos homens, depois reclama se é estuprada. É gata e AINDA é inteligente. Uma mulher daquela não precisa nem saber escrever. É inteligente, mas devia se arrumar um pouco, né? Mulher sem vaidade não dá! Sai daqui sua gorda nojenta. Depilação é questão de higiene. Deixar o cabelo ficar branco é ser relaxada. Mulher de salto é outra coisa. É fútil, só pensa em dieta, academia e shopping. Mulheres, coloquem uma coisa na cabeça de vocês, nós homens ________________________________ (insira aqui qualquer cagação de regra sobre como você deve conduzir a sua vida). Já deu pra todo mundo, não dá pra namorar uma mulher dessas, é pedir pra ser corno. É muito puritana, depois reclama que é traída. Mulher só pensa em casamento, é por isso que os caras fogem. Mulher tem que ser delicada, mulher tem que ser sexy sem ser vulgar. O homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço. Mulher não serve pra ser chefe. Um monte de mulher trabalhando junta, tinha que dar briga. Deu o golpe da barriga. Deu o golpe do baú. Pra que teve filho se vai trabalhar o dia todo? Tem filho depois fica cobrando pensão. Não são direitos iguais? Sai dando por aí e depois quer abortar. Sai dando por aí e depois joga criança no lixo. Sai dando por aí e depois quer que o governo sustente. Na hora de fazer não gritou. Não se dá o respeito.

Assim como uma garota ao fim de um pornô gang bang eu olho para os criadores do app fake, exausta, fodida e com a cara esporrada e digo: obrigada, por esta valiosa lição sobre objetificação, por colocarem numa linguagem que nós mulheres somos capazes de entender. Era trollagem, ufa!
Agora as mulheres podem voltar à rotina normal de julgamentos que só partem da sociedade e da cultura machista.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Detesto fim de ano

Detesto luzes de natal, trem e metrô cheio de gente carregando sacola, detesto as ruas lotadas de gente fazendo compras como se a vida dependesse disso, detesto ter que fazer compras, porque as outras pessoas não são anticapitalistas e ficam magoadas se não recebem presentes.

Detesto luzinhas natalina, musiquinhas natalina, Papai Noel, Mamãe Noel, Santa Claus, o polo norte e os duendes. Detesto mensagens sobre recuperar o "verdadeiro sentido do Natal", cartões de natal, missa do galo, o Papa, o Vaticano, a Igreja Católica apostólica romana e o cristianismo.

Detesto apresentação de coral, confraternização, festa da firma, amigo-secreto, ter que decidir com três meses de antecedência saber onde vou passar o ano novo, detesto ter que fazer alguma coisa no ano novo. Detesto sidra, a palavra reveillon, comida de ceia, ter que visitar várias pessoas e ser obrigada a comer as coisas da ceia - se não comer é desfeita. Detesto acabar comendo até passar mal.

Detesto ter que me arrumar toda pra dar rolê na sala, acho desejar feliz natal uma formalidade sem sentido e desnecessária, detesto as redes sociais cheias de mensagens edificantes e/ou piadinhas de gente metida a esperta e principalmente, detesto quem usa rede social pra falar de Jesus. Detesto promessas de ano novo, detesto gente falando que o ano passou rápido, detesto gente falando que esse ano não acaba porque a merda do ano dura exatamente o tempo de um ano.

Detesto as férias escolares porque todos os lugares ficam cheios de crianças insuportáveis acompanhadas de pais insuportáveis. Há crianças legais, filhas de pessoas legais, mas elas são poucas, a maior parte das crianças é tão detestável quanto os adultos com o agravante que não se pode bater nelas.

Detesto fim de ano. O cansaço físico e mental, as pessoas na academia fazendo “projeto verão”, os alunos chorando nota e a sensação de que neste período o mundo consegue ficar ainda mais estúpido, hipócrita, consumista e vazio.

A única coisa boa do fim do ano é que eu entro de férias daqui a duas semanas.

domingo, 24 de novembro de 2013

Em defesa do Lulu


Na primeira vez que ouvi do Lulu achei idiota, não ofensivo. Um aplicativo em que mulheres avaliam os homens dando notas e adjetivos sob a forma de hashtag. Pareceu-me bobo, adolescente. Imaginei algo muito mais explícito do que realmente é, que fosse falar de tamanhos de paus, gostos sexuais pouco ortodoxos, broxadas, daí em diante. Não resisti à curiosidade e entrei. E pra minha surpresa, achei divertidíssmo. Não era nada do que eu pensava.

Pra começar, o tal aplicativo que só teoricamente só poderia ser baixado por mulheres pode ser baixado por qualquer um. O site de download não perguntou meu gênero e você entra pelo login do Facebook. Ou seja, qualquer um com uma conta nessa rede pode entrar. Não dá pra levar a sério. Além disso, muito mais recatado do que eu imaginava. As avaliações não se restringem a sexo e podem ser feitas por pessoas com diferentes relações com o rapaz em questão: pela mulher interessada naquele cara, pela namorada/ficante atual, ex-namorada/ex-ficante e amiga. As perguntas e os itens avaliados são selecionados de acordo com a categoria de quem responde.

Os perfis são avaliados por uma série de critérios e quem avalia não é obrigada a responder todos os itens, que incluem perguntas sobre senso de humor, educação, caráter, comportamento, inteligência, e sim, beleza física e sexo, mas nada de tamanhos de pirocas e notas pra práticas sexuais, pra minha total decepção.

Assim que você loga um painel de perfil de amigos do Facebook aparece na sua tela e as fotos dos que possuem avaliações Minha segunda surpresa foi saber que o site mantém muito mais avaliações positivas que negativas. O site gera uma nota média pros avaliados somando todos os critérios e esta nota aparece sobre a foto do perfil. Aliás, dois dos meus amigos que tinham recebido avaliações eram gays, tinham recebido avaliações de amigas, descritos como pessoas gentis e inteligentes.

Mas vamos aos hétero. Mais uma surpresa. Não tinham sido meus amigos mais bonitos e populares que tinham recebido reviews, mas homens fora do padrão de beleza e em geral muito tímidos e reservados e que na maioria das vezes recebiam elogios de pessoas que já tinham ficado com eles, sobre serem educados, cheirosos, inteligentes, atenciosos e sim, beijarem bem e serem bons de cama, o tipo de coisa que em geral as mulheres contam umas pras outras sobre homens com quem já ficaram, estão ficando ou pretendem ficar. Coisas do tipo como responder mensagens rápido, ligar no dia seguinte, dormir de conchinha, se a pessoa fica e some, se sabe cozinhar e sim, o tamanho do pau, porque mulheres hétero em geral adoram falar de tamanho de pau de quem já pegou, tá pegando ou quer pegar.

Sim, passei a tarde olhando os rewiews das pessoas que eu conheço e me diverti muito. Porque é algo muito bobo mesmo. As críticas são mais sobre comportamento do que qualquer outra coisa: ser chato, crianção, muito vaidoso, contar piadas ruins, ter amigos “losers”, demorar pra tomar iniciativa ou notar interesse de uma mulher ou, ao contrário, ser inteligente, divertido, carinhoso, gentil, não ter vergonha de ser fofo, saber beber sem cair, respeitar as mulheres, se é legal com os pais da mulher que está saindo, se é responsável, se saber se virar sozinho seja pra se alimentar ou cuidar do espaço doméstico. Mas mesmo assim eu fiquei contente ver amigos meus recebendo elogios, saber que são considerados legais e/ou gostosos pelas pessoas que já ficaram com eles. E achei engraçado descobrir algumas coisas porque eu gosto de fofoca picante, me julga aí.

Trocando em miúdos, é indiretamente um aplicativo de paquera. Pra saber coisas sobre o cara que você está interessada é legal e tem pegada, talvez até usar isso pra puxar papo. Pra saber se outras mulheres falam bem de pessoas que você tem interesse ou mesmo dos seus amigos. Claro que tem gente que pode usar pra vingancinha. Mas até os comentários ruins estão sujeitos à avaliação, você pode responder se aquilo é verdade ou não, caso um conhecido seu esteja sendo injustamente difamado. Mas a verdade é que as avaliações de ex-ficantes ou ex-namoradas são em geral positivas, principalmente no temido quesito sexo.

Entretando o que me chamou a atenção sobre o Lulu foi a ~polêmica~ envolvendo o aplicativo, que seria uma ferramenta para objetificar os homens, que as mulheres estariam fazendo a mesma coisa que os homens fazem, que se houvesse um aplicativo semelhante para avaliar as mulheres “as feministas” estariam revoltadas e organizando protestos.

Pra começar, já existe um aplicativo que avalia as mulheres e as classifica as mulheres, chama-se vida. As mulheres são objetificadas o tempo todo. Nós nos acostumamos com concursos de misses, com musas da torcida, furacões da CPI, dançarinas de palco, com as mulheres seminuas na publicidade, com atletas de uniforme sexy, com a banalização de intervenções cirúrgicas para fins estéticos, com a ideia de que precisa sofrer para ficar bonita, com a ideia de que mulher precisa ser bonita ou no mínimo se esforçar pra ser bonita, com a imposição de padrões de beleza extremamente excludente.

Mas não é só isso. Nós vivemos numa sociedade que monitora nossa conduta sexual, que cobra que nos casemos e tenhamos filhos e que ensina às próprias mulheres a se verem como prêmios, a se objetificar, a objetificar as outras mulheres chamando-as de vagabundas, periguetes, vagabundas, rodadas, um mundo que separa mulher “pra casar”, que acusa mulheres se serem interesseiras, que julga o caráter e/ou a competência das mulheres dependesse do número de homens que quem ela se relacionou ou se relaciona.

As feministas estariam indignadas se houvesse um aplicativo pra avaliar mulheres? Ah, gente, por favor, né? Alguém aí lembra como foi que o Facebook foi inventado por um cara que tinha se vingado da namorada a expondo num blog? Que o Facebook no começo era pra homens avaliarem a aparência de mulheres? Alguém aí esqueceu que nas últimas semanas três jovens mulheres, duas menores de idade, se suicidaram porque homens em que elas confiaram compartilharam vídeos íntimos delas? Já esqueceram da Fran, que largou emprego, faculdade e que não consegue sair na rua porque a vida dela virou um inferno? Vocês esquecem todos esses sites de pornô amador?

É ofensivo e é uma estupidez comparar um aplicativo com a opressão que todas as mulheres sofrem todos os dias, dizer que estamos agindo igual aos homens. Primeiro porque não estamos julgando o caráter deles baseados no número de parceiras sexuais, não o ridicularizamos por fazer na cama coisas que nós gostamos que eles façam ou por coisas que nós gostamos de fazer. Sim, há mulheres que dão importância à coisas que eu pessoalmente considero uma bobagem, como o cara pagar a conta ou ter um carrão, mas eu não culpo essas mulheres por pensarem desse jeito, porque nós somos julgadas de acordo com o tipo de cara que conseguimos arrumar e somos ensinada que se um cara quer te conquistar ele tem que pagar a conta.

Leva tempo pra se libertar disso. Mas se o Lulu fosse um aplicativo de transformar homens em objetos, não estaríamos preocupadas em saber se o cara é engraçado, inteligente e respeita as mulheres. O grande problema do Lulu é expor algo que é insuportável para mentalidades machistas que é o fato de que mulheres gostam de sexo e falam sobre isso. E que quando estão interessadas em alguém elas querem saber se o cara tem uma boa fama porque elas pretendem fazer sexo com eles. Nós nos acostumamos a ver o sexo como uma coisa que as mulheres fazem pra agradar os homens. É por isso que choca. Porque mulher não pode falar de sexo em público, porque mulher que gosta de dar não presta, mulher que não presta não casa e deus o livre uma mulher não casar, porque todo o sentido da existência da vida de uma mulher é arrumar um marido.

Ironicamente, essa alegada objetificação é opcional, já que só podem ser avaliados perfis do Facebook e qualquer pessoa que não quiser ser avaliado pode retirar perfil do aplicativo. Não há nada parecido com isso na Internet ou na vida para que as mulheres não sejam objetificadas ou vítimas de porn-revenge.Ofensivo é mulher não poder falar de sexo, ofensivo é uma mulher chamar a outra de periguete, ofensivo é aceitar tranquilamente a objetificação das mulheres e sair em defesa dos homens e contra as mulheres numa assunto que é uma bobagem e que não chega nem perto do tipo de julgamento que todas as mulheres são obrigadas a enfrentar ao longo de suas vidas.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

“Leve-me ao seu líder”


A ânsia da grande imprensa em apontar líderes – ou culpados – carrega consigo nossa incapacidade de pensar a política fora da lógica da representação e está repleta de incoerências risíveis

 Em junho deste ano, quando o país foi tomado por uma onda inédita e convulsiva de manifestações de rua, a revista Veja apresentou a seus leitores um líder. Maycon Freitas, que segundo a revista, havia reunido milhares de pessoas em manifestações no Rio de Janeiro por meio da página UCC- União Contra a Corrupção, no Facebook. Freitas sintetizava perfeitamente o gigante que acordou: segundo suas declarações, sua motivação para ir às ruas não estava relacionada a alguns centavos, mas a construir uma democracia melhor e, consequentemente, um estado melhor.

Com o rosto pintado de verde e amarelo e usando as cores da bandeira nacional, Freitas era apenas um dos milhares de jovens que foi às ruas gritar “sem partido” com vistas a melhorar a democracia, ignorando que a existência de partidos livres é uma das premissas básicas dos regimes democráticos. De modo semelhante, o engajado ativista reproduz, sem pudores, a máxima reacionária “direitos humanos para humanos direitos” e apoia as agressões da polícia aos black bloc, ignorando que a existência de direitos humanos ser parte importante para a constituição de sociedades democráticas e que, há algum tempo, existe uma uma separação entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e que a punição não é atribuição dos efetivos policiais.

Pegando carona na onda das manifestações, a mesma publicação que apresentou aos movimentos populares um líder que eles ainda não conheciam conseguiu, no fim de agosto, a proeza de estampar em sua capa uma militante do bloco negro com o rosto coberto de vermelho, numa capa com fundo vermelho. Seis meses depois, agora é a vez da revista Época revelar ao grande público um novo líder, desta vez não das manifestações de massa, mas da “pequena minoria de vândalos” que fazem uso da tática black bloc.

Este líder seria o jornalista Leonardo Morelli, apontado pela reportagem como coordenador da ONG Defensoria Social, “braço visível e oficial que apoia os Black Blocs”, que seria responsável pela captação de recursos para o financiamento das atividades do grupo. Uma dessas ongs, o Instituto St Quasar, teria repassado € 100 mil aos cofres da entidade. Morelli cita entre seus doadores organizações como as suíças La Maison des Associations Socio-Politiques, sediada em Genebra, e Les Idées (ambas negaram as doações) e afirma que a Defensoria Social também foi abastecida pelo Fundo Nacional de Solidariedade, da CNBB (que também nega os repasses) e cita entre seus contatos os padres católicos Combonianos e a Central Operária Boliviana.

Morelli já foi citado como líder anarquista (sic) pela mesma publicação em outubro. Segundo a coluna do jornalista Felipe Patury, Morelli se apresenta como líder e porta-voz de um grupo anarquista que teria assumido ser proprietário de 119 bananas de dinamite apreendidas pela polícia paulista em Guarulhos. Os explosivos seriam usados em um protesto em novembro denominado “um dia de fúria”.

O que possuem em comum os personagens citados? Nossa incapacidade de pensar a política fora do jogo institucional e sem a figura do líder.

Durante as jornadas de junho, uma crítica recorrente às manifestações que se alastravam pelo país dizia respeito à falta de liderança. Num breve momento, alguns integrantes do Movimento Passe Livre (MPL), grupo que havia convocado as manifestações pela redução na tarifa do transporte público ocupou esse lugar. Porém, com a revogação do aumento em diversas cidades brasileiras, o MPL tomou a decisão de não convocar outras manifestações. Desde então não tem sido poucos os que tentam preencher este vácuo de poder, seja pela apropriação dos movimentos por partidos de cores diversas, seja pela fabricação midiática de “líderes” que não são nem de esquerda, nem de direita e muito pelo contrário. O problema é que o surgimento desses novos atores no cenário político nacional vem carregado de um desconhecimento gritante a respeito da política - seja ela institucional ou não – e de incoerências risíveis que, por ingenuidade ou má-fé, têm sido sumariamente ignoradas.

Assim como a visão de democracia defendida pela nova geração de caras-pintadas não é exatamente democrática, as informações a respeito de supostos líderes anarquistas não são condizentes com princípios básicos dessa filosofia política, que incluem horizontalidade, autogestão, solidariedade e amizade. Sem deuses e sem mestres, já diria um clássico lema anarquista. Portanto, a própria de ideia de líder anarquista já é uma contradição em termos.

Falando em contradições, entre as fontes de financiamento do tal “braço visível e oficial” que apoia os black bloc, a ong Defensoria Social, estariam a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e “padres colombianos” estariam entre os contatos internacionais do grupo. Mas espera um pouco, anarquistas associados à Igreja? A CNBB negou os repasses à entidade, assim como as duas ongs suíças citadas na matéria da Época (La Maison des Associations Socio-Politiques e Les Idées) como financiadoras dos black blocs brazucas.

Por fim, não há informações sobre a entidade supostamente responsável pela doação de € 100 mil para “o braço visível e oficial” de apoio aos BB, o Instituto St Quasar, segundo a reportagem, uma ong ligada a causas ambientais. Considerando que a suposta doação não trata de uma quantia desprezível (cerca de R$ 300 mil) e devida à falta de informações adicionais mínimas, como país de origem, tempo de existência, área de atuação decidi saber um pouco mais sobre o tal instituto. Entretanto a entidade não possui endereço na Internet e, nos sites de busca, foram encontradas apenas duas ocorrências sobre o Instituto St Quasar (que não se referiam à matéria da revista Época).

A primeira é uma notícia sobre uma ação conjunta ambiental realizada por municípios do estado de São Paulo realizada no dia 22 de março, no Dia Mundial da Água. A ação teria sido promovida em parceira entre Instituto St. Quasar e Movimento Grito das Águas, do qual Morelli foi (é?) coordenador. Contudo, o texto não apresenta nenhum informação adicional sobre a origem e atividades dessa entidade. A segunda ocorrência a respeito do Instituto St. Quasar aparece em site de CNPJs. De acordo com as informações deste endereço, o Instituto St. Quasar é uma empresa de “pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências sociais e humanas” criada em janeiro de 2012, com sede em Mongaguá, litoral paulista.

Por fim, se procede a informação publicada pela coluna de Felipe Patury, sobre Morelli ser o líder de um grupo anarquista em Guarulhos que teria assumido a posse de 119 bananas de dinamite, então estamos diante não apenas do mais ocupado e centralizador líder-de-ongs-treinador-de-black-blocs da nossa história, como temos o melhor time de advogados do país. Pensem comigo: se durante as manifestações tanta gente foi presa por porte de vinagre e em diversas cidades manifestantes têm sido levados para penitenciárias apesar da falta de provas e de negarem envolvimento em atos de vandalismo, muito me estranha que alguém que teria assumido a posse de artefatos explosivos esteja em liberdade. Em tempo: a matéria de capa da revista Época é assinada por Leonel Rocha, repórter da coluna de Patury e assina a nota sobre as dinamites.

Na semana passada a Polícia Federal divulgou a identificação de 130 pessoas pelas redes sociais que são suspeitas de incitar violência em protestos, todas essas revelações de treinamento paramilitares, financiamento internacional e posse de explosivos pela própria pessoa que poderia sofrer com as consequências legais desses atos parecem muito suspeitas. Afinal, qual o interesse em definir os anarquistas como bodes expiatórios?

A reportagem de Época foi recebida com chacota e revolta nas páginas do Black Block RJ e Black Bloc SP negam tanto o recebimento de fundos de quaisquer financiamento, nacional ou estrangeiro e a existencia de um líder para a tática. Afinal, se os adeptos da tática precisassem de visibilidade, não faria sentido esconder o rosto. Independente disso, cabe estar atento não para o que o que nos informa a grande imprensa, mas sobretudo aos pontos que ela de forma muito relapsa deixa de esclarecer.

domingo, 3 de novembro de 2013

Carta a uma jovem feminista

Querida amiga,

Estou te escrevendo esta carta porque já estive no seu lugar e eu sei que este mundo deve estar de deixando maluca. Por isso estou aqui para te dar a mão e te dizer que você pode contar comigo, como uma irmã velha. Como uma irmã feminista.

Como você já deve ter percebido, este mundo não foi feito para nós. Assim como eu, você deve ter sido ensinada desde pequena que sua função primordial nesta vida é ser bonita e agradar. O papel que te ensinaram a desempenhar foi ser doce e graciosa. Pra quando crescer você poder arranjar um bom emprego e um bom marido. E ter filhos, porque afinal de contas você é uma mulher, é óbvio que você quer ser mãe.

Mas de alguma forma, algo deu errado com você. Você gostava de brincar de Barbie, mas também de subir em árvore, de carrinhos de controle remoto, de skate e outras coisas “de menino”. Você não engolia desaforos e brigava na escola e teve que ouvir muitas vezes que se isso já é feio pra um homem, é muito pior para uma mulher.

Então você se tornou mocinha e as coisas não pararam de piorar. Você achou que não havia nada de errado em se declarar pro menino que gostava e por conta disso virou objeto de chacota. Você foi a primeira de suas amigas a transar e quando o namoro acabou e seu coração ficou partido teve que ouvir que a culpa é sua, porque se entregou muito facilmente, os homens são assim mesmo, eles vão embora depois de conseguir o que querem. Mas você também queria, na verdade a ideia foi sua. Então você virou a vadia do colégio, a menina que não era mais virgem, que não era pra namorar.

Você chorou sozinha, porque seus amigos diziam que a culpa era sua. Você nem podia contar pra sua mãe, porque fazer sexo na adolescência é errado e você tinha medo do que poderia acontecer se ela descobrisse. Você sabia que não tinha feito nada de errado. Você era boa aluna e tinha bom caráter. Você fez tudo certinho, se informou do necessário pra evitar doenças e uma gestação indesejada. Mas nada disso importava porque você simplesmente não deveria estar fazendo sexo. Você deveria “se valorizar”, embora nunca tenha entendido realmente o que havia de errado em expressar seu afeto e seu desejo.

O que havia de errado, minha querida, era ser mulher. Então você lutou com todas as forças para não ser e se esforçou para renegar tudo aquilo que era associado com o feminino. Começou a falar grosso, chamar palavrão, fumar e beber em quantidades cavalares. Porque você não era igual às outras. Você não era frágil, você não era delicada, você não era fútil. Você tentou agir como um homem porque percebeu que as mulheres eram sempre ridicularizadas, tratadas como seres inferiores, infantis, emotivos. E você não queria ser nada disso. Você começou a agir como homem na esperança que eles te tratassem como um igual. E funcionou por um tempo, até que você percebeu que ao menor deslize você teria que ouvir que "tinha que ser mulher", que era coisa"de menininha".

Um dia você se cansou de tudo isso e foi nesse dia que as coisas começaram a mudar. Eu não sei como você chegou ao feminismo e a esse texto, mas eu imagino, a sua alegria ao perceber que tudo isso não acontece por acaso. Que o problema não é você ser mulher, mas toda um sistema cultural criado para nos aprisionar, para sequestrar nossa sexualidade, para nos fazer sentir inseguras com nossos corpos, para achar que nós estamos em perpétua competição umas com as outras. Eu entendo que se ao mesmo tempo você está encantada com tudo isso, há também um sentimento de revolta crescente, uma vontade de tocar fogo no mundo. A verdade te libertará, mas primeiro era vai te enfurecer, já disse a feminista Gloria Steinem.

Então, se eu posso te dar um conselho eu te recomendaria duas coisas: estar atenta e forte, como diz aquela música. Estude, porque nesse mundo em que não somos levadas a sério a gente ter muita segurança na hora de falar. Porque não tenha dúvidas: vão tentar desqualificar seus argumentos, vão tentar te irritar com piadas estúpidas. E você tem que ser mais inteligente que eles, para rebater as provocações mostrando o quanto elas são ridículas. Porque dizem que feministas não têm senso de humor e dizem muitas coisas sobre o feminismo, mas eu vou te contar algo sobre feminismo que você não vai ler na coluna de nenhum colunista de jornal reacionário: o feminismo é libertador. O feminismo vai te ajudar a ver que você tem irmãs com quem pode contar, que nós não estamos competindo umas com as outras, que nós podemos ser quem quisermos.

Você é forte, você é corajosa e eu estou aqui pra você.
  
Com amor,

FM