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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especial Dia das Mães: Direito ao Aborto


Dia das Mães está chegando e em breve teremos uma enxurrada de textos sacralizando a maternidade e dizendo que esta é a maior alegria que uma mulher pode ter na vida, que você só se realiza como mulher quando se torna mãe e mais um monte de bobagem que reduz a existência das mulheres a algo semelhante a uma incubadora. 

Em primeiro lugar, acho que ter um filho deve ser uma alegria imensa, independente se você o gerou ou não. Gosto muito de criança, acho lindos, foftinhos e me divirto muito brincando com elas. Talvez eu tenha um ano que vem. Talvez eu não tenha nunca e isso não é da conta de ninguém. O que realmente me incomoda é esse bullying da maternidade compulsória, a ideia de que uma mulher só se realiza sendo mãe. Essa pressão social possui um lado extremamente perverso, que é a criminalização da mulher opta interromper uma gestação indesejada. Por isso eu decidi escrever este texto, pra lembrar que a maternidade deve ser um direito, nunca uma imposição da sociedade.

Eddie Vedder, seu lindo!
Sou feminista, logo sou uma militante pro-choice. Isso quer dizer que eu sou a favor da legalização do aborto (feminista pro-life é tipo anarcocapitalista: uma contradição em termos). Legalizar o aborto não quer dizer que as pessoas será obrigadas a abortar, isso quer dizer que a mulher que optar por interromper a gestação poderão fazer isso com assistência médica adequada. Mas antes que você comece a me xingar dizendo que eu não tenho respeito pela vida humana e dizer que as mulheres que abortam são umas egoístas, uma advertências: não adianta falar no caráter sagrado da vida e dizer que se a pessoa não queria ter engravidado ela simplesmente não deveria ter feito sexo/usado camisinha. Primeiro porque religião é uma convicção pessoal e ninguém tem certeza que existe alguma coisa além disso aqui, segundo porque métodos contraceptivos falham. Esse não é um debate sobre religião, nem sobre moralismo. Este é um debate sobre saúde pública, portanto sobre política.

Aliás, eu não boto fé em quem fala que a vida é sagrada e tá de boa com matar animais pra comer,
explorar os recursos naturais do mundo à exaustão pra manter seus hábitos de consumo, passa reto por moradores de rua e acha que bandido bom é bandido morto. Se for pra fazer discurso moralista sobre o quanto a vida é sagrada vamos mostrar o mínimo de coerência, como frisou o George Carlin nesse vídeo.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto o fazem defendendo o direito da "criança". Criança, meus amigos, é quando o feto já tem condições de sobreviver fora do útero. Antes disso, no estágio embrionário, o que temos são células que poderão ou não formar uma criança (e taí o número de abortos espontâneos no primeiro trimestre altíssimo para comprovar que nem todo óvulo fecundado é viável). A maioria dos abortos é realizado antes da formação do feto e do sistema nervoso central. Essas coisas que circulam pela Internet com fetos pensantes sendo abortados depois de completamente formados é uma mentira propagada por grupos pro-life.

"Ain, mas é fácil ser a favor do aborto se você já nasceu". Bom, se eu não tivesse nascido eu não seria contra nem a favor de nada, porque eu simplesmente não existiria e eu não sei você, mas eu não me lembro de muita coisa de quando eu estava na barriga da minha mãe, porque, bem, eu ainda não era uma pessoa. E não é fácil ser a favor da legalização do aborto, porque é exaustivo repetir de novo e de novo e de novo e ter argumentos racionais que são rebatidos com ignorância sobre processos biológicos, moralismo, fundamentalismo religioso e outras falácias.
Esses dias eu ouvi dizerem que se a mulher não quer ficar grávida "que não trepe". Bem, esse tipo de argumento é tão medieval que dá medo de pegar peste negra, mas eu fico pensando na cara de pau que algumas pessoas têm de achar que todo mundo deveria agir de acordo com que elas acham certo. Eu por exemplo acho que as pessoas deveriam pensar antes de falar besteira, mas nem por isso eu defendo que o Estado amordace quem não sabe a diferença entre argumentar e relinchar.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto aceitam que ele seja realizado em caso de estupro. Isso só mostra que na verdade as pessoas não estão preocupadas com a "vida" e em decidir sobre o corpo das mulheres e sobre sua sexualidade. Foi estuprada? Beleza, a gente deixa. Gozou, então tem que levar adiante uma gestação indesejada que é pra aprender a "ser responsável". Isso só mostra o quanto a nossa sociedade não vê as mulheres como seres autônomos e sim como seres nos quais os corpos são um imenso penico para a cagação de regra coletiva. (Mas há pessoas que são contra o direito ao aborto em qualquer circunstância e há um projeto de lei rolando que quer impor uma violação coletiva às mulheres do Brasil. Leia mais aqui e aqui).

Acordem, o direito ao aborto existe para quem pode pagar por um procedimento feito por um médico, numa clínica, com todas as condições de segurança e limpeza. As mulheres sempre praticaram abortos e continuarão praticando, a diferença é que as mulheres pobres vão fazer isso de forma precária. A cada dois dias morre no Brasil uma mulher em decorrência de abortos realizados em más condições. Ser contra legalizar o aborto não é ser pró-vida, é ser contra essas mulheres. Defender a legalização do aborto é uma questão de humanidade, como mostra a experiência no Uruguai. É também uma questão de respeito pelas mulheres, que devem ser as únicas responsáveis por decidir quando e se tornarão mães.

Dito isto, feliz dia para aquelas que ESCOLHERAM ser mães <3



domingo, 3 de novembro de 2013

Carta a uma jovem feminista

Querida amiga,

Estou te escrevendo esta carta porque já estive no seu lugar e eu sei que este mundo deve estar de deixando maluca. Por isso estou aqui para te dar a mão e te dizer que você pode contar comigo, como uma irmã velha. Como uma irmã feminista.

Como você já deve ter percebido, este mundo não foi feito para nós. Assim como eu, você deve ter sido ensinada desde pequena que sua função primordial nesta vida é ser bonita e agradar. O papel que te ensinaram a desempenhar foi ser doce e graciosa. Pra quando crescer você poder arranjar um bom emprego e um bom marido. E ter filhos, porque afinal de contas você é uma mulher, é óbvio que você quer ser mãe.

Mas de alguma forma, algo deu errado com você. Você gostava de brincar de Barbie, mas também de subir em árvore, de carrinhos de controle remoto, de skate e outras coisas “de menino”. Você não engolia desaforos e brigava na escola e teve que ouvir muitas vezes que se isso já é feio pra um homem, é muito pior para uma mulher.

Então você se tornou mocinha e as coisas não pararam de piorar. Você achou que não havia nada de errado em se declarar pro menino que gostava e por conta disso virou objeto de chacota. Você foi a primeira de suas amigas a transar e quando o namoro acabou e seu coração ficou partido teve que ouvir que a culpa é sua, porque se entregou muito facilmente, os homens são assim mesmo, eles vão embora depois de conseguir o que querem. Mas você também queria, na verdade a ideia foi sua. Então você virou a vadia do colégio, a menina que não era mais virgem, que não era pra namorar.

Você chorou sozinha, porque seus amigos diziam que a culpa era sua. Você nem podia contar pra sua mãe, porque fazer sexo na adolescência é errado e você tinha medo do que poderia acontecer se ela descobrisse. Você sabia que não tinha feito nada de errado. Você era boa aluna e tinha bom caráter. Você fez tudo certinho, se informou do necessário pra evitar doenças e uma gestação indesejada. Mas nada disso importava porque você simplesmente não deveria estar fazendo sexo. Você deveria “se valorizar”, embora nunca tenha entendido realmente o que havia de errado em expressar seu afeto e seu desejo.

O que havia de errado, minha querida, era ser mulher. Então você lutou com todas as forças para não ser e se esforçou para renegar tudo aquilo que era associado com o feminino. Começou a falar grosso, chamar palavrão, fumar e beber em quantidades cavalares. Porque você não era igual às outras. Você não era frágil, você não era delicada, você não era fútil. Você tentou agir como um homem porque percebeu que as mulheres eram sempre ridicularizadas, tratadas como seres inferiores, infantis, emotivos. E você não queria ser nada disso. Você começou a agir como homem na esperança que eles te tratassem como um igual. E funcionou por um tempo, até que você percebeu que ao menor deslize você teria que ouvir que "tinha que ser mulher", que era coisa"de menininha".

Um dia você se cansou de tudo isso e foi nesse dia que as coisas começaram a mudar. Eu não sei como você chegou ao feminismo e a esse texto, mas eu imagino, a sua alegria ao perceber que tudo isso não acontece por acaso. Que o problema não é você ser mulher, mas toda um sistema cultural criado para nos aprisionar, para sequestrar nossa sexualidade, para nos fazer sentir inseguras com nossos corpos, para achar que nós estamos em perpétua competição umas com as outras. Eu entendo que se ao mesmo tempo você está encantada com tudo isso, há também um sentimento de revolta crescente, uma vontade de tocar fogo no mundo. A verdade te libertará, mas primeiro era vai te enfurecer, já disse a feminista Gloria Steinem.

Então, se eu posso te dar um conselho eu te recomendaria duas coisas: estar atenta e forte, como diz aquela música. Estude, porque nesse mundo em que não somos levadas a sério a gente ter muita segurança na hora de falar. Porque não tenha dúvidas: vão tentar desqualificar seus argumentos, vão tentar te irritar com piadas estúpidas. E você tem que ser mais inteligente que eles, para rebater as provocações mostrando o quanto elas são ridículas. Porque dizem que feministas não têm senso de humor e dizem muitas coisas sobre o feminismo, mas eu vou te contar algo sobre feminismo que você não vai ler na coluna de nenhum colunista de jornal reacionário: o feminismo é libertador. O feminismo vai te ajudar a ver que você tem irmãs com quem pode contar, que nós não estamos competindo umas com as outras, que nós podemos ser quem quisermos.

Você é forte, você é corajosa e eu estou aqui pra você.
  
Com amor,

FM

domingo, 27 de maio de 2012

Marcha das Vadias 2012: a nossa luta é todo dia

Segundo os cálculos da Polícia Militar de São Paulo, devíamos ser 700 pessoas carregando cartazes, cantando e usando nossos corpos para colorir o percurso que foi da Praça do Ciclista (Avenida Paulista), desceu a rua Augusta e foi até a Praça da República para protestar contra o machismo e a violência contra a mulher.
Não importa o número. Éramos muit@s. Éramos a legião. Mulheres que não toleram mais as agressões a que estamos expostas diariamente: das ofensas dirigidas à nossa sexualidade, cantadas e encoxadas no metrô à culpabilização das vítimas pela violência que sofrem. Ela não deveria estar andando sozinha, ela não deveria andar vestida daquele jeito, ela não deveria ter bebido tanto, ela estava pedindo. Junto a nós muitos homens que se recusam a fazer parte dessa cultura e que entendem que o machismo é algo que prejudica tanto aos homens quanto a nós. Mães e pais com suas crianças a favor de uma educação que não crie nem machões nem submissas.

Dia 26 de maio de 2012. Era uma linda tarde de sol quando unid@s pelo lema "Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias" uma multidão fechou parte da Avenida Paulista para gritar que não aceitaremos calad@s a violência a qual somos submetidas diariamente. As atividades começaram por volta das 14h30, com o megafone aberto para depoimentos emocionados de sobreviventes da violência doméstica, abuso sexual e estupro.

O grupo de mulheres que organiza a Marcha das Vadias em Campinas (SP) fez um jogral que lembrava os números da violência contra a mulher no Brasil, das anônimas às Eloás, Elizas, Mércias e Marias da Penha. Usando o "microfone humano" - tática usada pelos manifestantes do Occupy em diversas partes do mundo - íamos repetindo esses dados e frases que ao final deixaram muitas com lágrimas nos olhos. Eu fui uma delas.

Saímos em direção à rua Augusta. Que alegria foi pra mim encontrar várias alunas no protesto, que foi muito bonito e pacífico. Por isso mesmo causou-me estranhamento (e medo) ao ver nosso cortejo escoltado por batedores da PM. Protestar pode, desde que não atrapalhe o tráfego. Felizmente, não tivemos problemas com a lei. Por onde passamos vimos rostos que ora estavam perplexos - principalmente diante das várias mulheres sem camisa - ora sorriam demonstrado apoio.


Dos ônibus e carros muitas mulheres acenavam em sinal de aprovação. De um dos prédios da Augusta, um homem balançava a bandeira do Corínthians ao som da nossa batucada. Em um dos melhores momentos cantamos diante de uma igreja "Sexo! Aborto! Direito ao nosso corpo!" e "Mantenha seu rosário bem longe dos meus ovários" contra a intromissão do Papa nas políticas relativas ao aborto e casamento gay. Vale lembrar que a marcha tem o apoio e participação das Católicas Pelo Direito de Decidir, grupo que cujo nome já diz, é composto por mulheres católicas favoráveis a descriminalização do aborto. Isso me remete a outro grito que marcou o protesto "Que contradição! Aborto é crime, homofobia não". O que nos lembra que nossa luta tem muito pela frente.


Chegamos na Praça da República às 17h ainda cantando "Vem pra rua, vem contra o machismo". Como eu, muit@s presentes estavam cansados, com fome e com sede, mas não fomos embora antes de fazer um minuto de silêncio por tod@s aquelas que tiveram suas vozes silenciadas pelo machismo e que são a razão de termos, em 15 cidades brasileiras, ter usado o nosso tempo livre para lembra-las e nos unir até que tod@s sejamos livres.

Machistas, fascistas: não passarão!


terça-feira, 15 de maio de 2012

Meu cabelo também é política


Eu estava na porta da sala conversando com meus alunos e alguém elogiou meu cabelo e os demais no grupo concordaram, disseram que o meu cabelo crespo, cortado num estilo quase black power não só é "muito estiloso", mas é "a minha marca". Um rapaz que estava no grupo me perguntou se eu nunca tinha pensado em alisar. Para a surpresa deles respondi que não só pensei, como passei mais de 10 anos alisando o cabelo com tudo o que havia disponível na indústria dos cosméticos: relaxamentos à base de amônia, escovas progressivas à base dde formol, secador, chapinha e mais uma infinidade de produtos que tenho medo até de lembrar. Manja henê? Aquela bisnaga preta usada para alisar cabelos afro? Já usei também.Isso me fez pensar o longo caminho que levei para aceitar o meu cabelo natural e como, para minha surpresa, passei a gostar dele como nunca havia gostado antes.

 Sou fruto de uma dessas misturas multiétnicas tão comuns no Brasil: mãe "branca" (ascedência portuguesa e espanhola) e pai "preto", filho de libanês com uma cabocla do interior do Amapá. Sou a mais velha de três filhos, um de cada cor: tenho a pele mais escura, enquanto meus irmãos estão mais pra brancos, mesmo assim com diferença de tonalidades. Minha irmã, branquinha como leite, saiu com os cabelos cacheados, meu irmão de cabelo liso como o da mamãe e eu, a pretinha da casa, com um cabelo que não se definia: grosso e ondulado, não fazia cachos nem alisava. Bom, pelo menos era isso que eu pensava antes de aprender a cuidar dele.

Desde pequena eu aceitei que meu cabelo era ruim. Nunca tinha parado para pensar no racismo embutido nessa expressão. Comecei a alisar pensando que era a única maneira de deixa-lo bonito, já que não possuía os belos cachos da minha irmã. Porque é isso que acontece: não somos ensinados a lidar com o que temos, mas com o que gostaríamos de ter. Então não é de se espantar frases como "ser mulher é passar a vida lutando contra o próprio cabelo". Nós queremos o cabelo da atriz global, da capa da revista, da amiga, da mãe, da irmã, da vizinha. E fazemos de tudo para tentar chegar naquele modelo que algumas privilegiadas têm de nascença. Pra mim o cabelo perfeito nessa época era o oriental: negro, liso, brilhante, cheio. Hoje eu continuo achando este cabelo muito bonito, mas aprendi a ver a beleza em outros cabelos e no meu cabelo.

Demorou muito tempo para eu perceber que a ditadura do cabelo liso faz parte de um sistema que institui uma verdade única e uma beleza única. E que nesse sistema - que inclui cinema, televisão, moda e publicidade - as mulheres negras consideradas bonitas possuem sempre alguma característica mais comum em pessoas brancas: narizes pequenos e afilados, olhos claros, cabelos lisos, muitas vezes clareados. Tyra Banks, Naomi Campbell, Rihanna, Beyoncé. No Brasil é muito comum que as poucas atrizes negras de destaque nas novelas apareçam de cabelo alisado, embora essas mulheres (Taís Araújo, Camila Pitanga, Sheron Menezes) optem por usar seus cabelos crespos fora das telas.

A mídia brasileira já dá a impressão de que vivemos na Suécia. Por mais bonitas que sejam Gisele Bundchen ou Grazi Massafera, não dá pra dizer que elas sejam típicas mulheres brasileira, com seus cabelos lisos, loiros, suas pernas longas e  bundinhas minúsculas. Agora imagine, querid@ leitor@, se você é uma menina morena/negra e as poucas pessoas na mídia que se parecem minimamente com você todas ostentam cabelos lisos e esvoaçantes que você não tem. Tudo bem, elas também não, mas você como adolescente, bombardeada pelo discurso de que "o importante é se sentir bem" ou "pra ser bonita tem que sofrer" vai fazer o que? Alisar o cabelo até o fim dos seus dias. Não é que eu não me achasse bonita como era antes. Mas porque eu tinha que encher minha cabeça de química e gastar rios de dinheiro só pra corresponder ao padrão do cabelo "mais bonito"? Por que eu não poderia ser feliz e me achar bonita de outro jeito? Foi só depois que percebi isso que decidi "voltar às raízes".

Felizmente, após os 30 anos eu decidi que já era hora de passar a vida enchendo a minha cabeça de produtos químicos cujos efeitos a longo prazo não são muito claros. Mas admito, foi uma luta. Porque o olhar para a beleza é algo que a gente treina e depois de anos me achando bonita de cabelo alisado eu passei meses para "me conformar" com a minha nova imagem. Honestamente, não pensei que fosse me achar tão bonita quanto de cabelo liso. Pra piorar, as pessoas ao redor não estão dispostas a ajudar. Quando comecei a deixar minha raiz crescer uma meia dúzia de pessoas me deu força (o apoio do meu marido foi fundamental), mas era comum que amigos me perguntarem o que estava acontecendo com meu cabelo e que estranhos me perguntassem por que eu não fazia progressiva. Mais de uma vez pensei em desistir.

Até que um belo conheci um cabeleireiro maravilhoso que me mostrou que eu tinha um cabelo muito bonito, só precisava aprender a cuidar dele. Descobri que tudo o que eu sabia desde a infância sobre pentear, lavar e cortar o cabelo estava errado, que o cabelo crespo requer uma técnica completamente diferente (outra hora eu conto uns desses segredos). Não vou esquecer nunca das palavras dele "Você não conhece o seu cabelo, o seu cabelo é muito bonito". Eu nunca achei que meu cabelo natural pudesse ser bonito. Mas para a minha surpresa, com um corte, produtos e cuidados adequados hoje eu tenho um cabelo sem química que vive recebendo elogios. Todo mundo comenta que ele tem personalidade, que é estiloso. Outro dia uma menina que treina boxe comigo me disse "Seu cabelo é lindo". E sabem, eu fiquei feliz por concordar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Somos todos feministas - até você que acha que não*

 
Somos todos feministas. Mesmo que você aí, que também é mulher, ache que feministas são mal-amadas que queriam ser homens. Ou que prefira mesmo que os homens paguem a conta, que abram a porta do carro e te puxem a cadeira no restaurante. Mesmo você aí que é homem e acha que tudo bem ter um dia internacional da mulher, se os outros 364 são de vocês. Mesmo você que é muito moderno, mas que não lava nem a sua cueca.

Porque você aí que está louca pra se casar e ter três filhos, graças ao feminismo, vai escolher o seu marido e poder tomar pílula, pra não ter doze criancinhas ao invés de três. E você nem precisa renunciar ao seu nome de família se não quiser. A lei te permite ser casada e manter seu nome. Ou que seu marido adote o seu. E se não der certo, a sociedade não vai estampar na sua cara um rótulo de vagabunda porque você se separou. Você começa tudo de novo, porque você tem um emprego e não depende do sustento de seu marido ou do seu pai. E se deus o livre um dia um safado cometer alguma violência contra você, você pode ir a uma delegacia que trata especificamente esse tipo de crime. E se você pode dirigir, pode usar a roupa que quiser, estudar, votar, ir ao bar com suas amigas, dormir com seu namorado antes de casar (e sem ter que casar porque dormiu) e tantas outras coisas que mesmo quem é muito metida a tradicional não dispensaria fácil, saiba que se não fossem as feministas muitas dessas coisas demorariam a acontecer. Se é que aconteceriam.



E você aí que é homem e a essa altura pode estar pensando que muitas “conquistas” femininas na verdade favoreceram o homem, eu sinto dizer que você está se enganando. Porque se você acha bom que a mulher divida a conta no jantar, isso quer dizer que ela também escolhe o que vão comer. Se você acha que é ótimo dormir com alguém sem ter que casar, namorar, você sabe que corre o risco de também ser visto como um mero pedaço de carne. Se você quer muito ter um filho pra chamar de Júnior é bom saber se mulher que você escolheu quer ser uma feliz mamãe de uma penca de filhinhos. Porque ela também trabalha, porque ela também está preocupada com a carreira e pode ter outras prioridades que te assustem. E por fim, se você acha que tudo isso vale pras outras menos pra sua mãe, porque afinal, a gente tende a achar que mãe não é mulher, saiba que um belo dia ela pode acordar cansada da vida de rainha do lar e ir a luta. E aí ela vai dizer que até lava a sua roupinha, mas que você comece a arrumar suas coisas e ajudar em casa.  A minha mãe fez isso, não pense que não acontece. Mas não fique triste. Porque quando você não tem mais de ser o provedor da casa, nem o homem forte que não chora nunca. Porque provavelmente a mulher que você encontrar vai querer ser sua companheira e construir uma vida com você.
  

Eu sei, você que também é feminista como eu, deve estar achando que eu pirei. Que as mulheres continuam sendo espancadas, rotuladas como piranhas ou mal-amadas, continuam ganhando menos, continuam cumprindo a dupla-jornada, que ainda guiam suas vidas por valores questionáveis, que muitas ainda julgam umas às outras e perpetuam o machismo. É verdade. É por isso que a gente tem que lutar todos os dias. O feminismo já conseguiu muita coisa, mas temos que diariamente combater nossos próprios preconceitos. Os nossos e os de quem está à nossa volta.

Isso quer dizer que além de palavras de ordem, temos que chamar nossos pais, irmãos, namorados, maridos, amigos do sexo masculino, pras tarefas domésticas. Não pra “eles verem o que é bom”, mas porque é justo que todos ajudem. Lutar diariamente contra o machismo é evitar dizer que “se tal coisa já é feia em homem, em mulher é pior”. Ou que é a mulher que se preocupa com a casa e com a família, que temos “mais jeito” pra essas coisas. Nós não somos seres superiores e nem tampouco os homens são seres que precisam que sejamos sempre mães deles. Nós temos que lutar pela igualdade. De direitos, de tratamento e de convivência social. Sempre. Todos os dias do ano, todos os dias da vida.

*Originalmente publicado em 08/03/2006 no falecido blog Oficina Irritada 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dois motivos para comemorar

Na semana em que comemora-se o Dia Internacional da Mulher, as brasileiras ganham dois motivos para comemorar: a aprovação da lei que pune as empresas que pagarem salários menores às funcionárias contratadas para executar a mesma função que homens e eleição da primeira mulher a presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O primeiro representa um avanço na luta por uma antiga demanda feminista: a igualdade salarial entre gêneros. A segunda chama atenção para a pouca representatividade feminina no sistema político partidário.

O texto aprovado ontem prevê que o empregador que remunerar de maneira discriminatória o trabalho da mulher terá que pagar multa correspondente a cinco vezes a diferença sobre os vencimentos oferecidos aos homens durante todo o período da contratação. O projeto foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos do Senado (CDH), pelas comissões de Constituição e Justiça (CCJ) e de Assuntos Sociais do Senado (CAS).

Embora a Constituição e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já proíbam a diferença salarial entre homens e mulheres, prática até agora era bastante comum em diversas empresas do país. Espera-se agora que a proposta não se transforme em letra morta e com a ameaça de punição as empresas passem a aplicá-la (até porque é essa a língua que os empresários costumam entender melhor: a do bolso). Infelizmente, as diferenças salariais entre gêneros não se restringem ao Brasil. Há três anos o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou uma lei semelhante em seu País.

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes da Rocha foi eleita  substituirá o ministro Ricardo Lewandowski no mais alto posto da Justiça Eleitoral do País por seis votos a um e já terá como principal desafio coordenar as eleições municipais de outubro. A ministra teve uma atuação importante em defesa da Lei Maria da Penha e na Lei da Ficha Limpa.

Em seu primeiro discurso depois de eleita, a ministra lembrou os 80 anos do voto feminino no Brasil e que hoje as mulhures correspondem a 52% do eleitorado nacional. Apesar disso, ainda existe pouca representação feminina em cargos públicos. A posse da ministra deve ocorrer no próximo mês.