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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rock, machismo e vergonha alheia

Uns tempos atrás eu andava ouvindo Beyoncé no repeat quando meu marido me perguntou se eu tinha deixado de ser roqueira. Achei engraçado, mas depois comecei a pensar sobre isso. Durante muitos anos eu repeti que minha vida havia sido salva pelo rock'n'roll. Em certa medida, ela foi mesmo. Meu gosto musical definido muito cedo (em torno dos 10 anos), alinhado com a atitude rebelde e contestadora que aparentemente vinha no pacote, me ajudou a definir um bocado de coisa na vida. Do meu estilo de me vestir ao tabagismo adquirido para compor personagem - é ridículo, eu sei, mas em minha defesa devo dizer que era adolescente. Gostar de rock me fez me empenhar para aprender inglês, o que mais tarde serviu pra arrumar meu primeiro emprego, aos 14. Minha aproximação com o anarquismo, como pra tantas pessoas que conheço, se deu por meio do punk. O rock me deu toda uma sociabilidade, amigos, amores e momentos incríveis ao som de músicas idem.

Resumindo, posso dizer sem exagero que minha vida seria bem diferente se não fosse roqueira. Porém, de uns tempos pra cá comecei a me abrir para outros estilos musicais que antes eu não me interessava ou tinha preconceito, como o pop. Sempre gostei de uma diva, seja ela uma cantora de jazz ou uma performer como Madonna, Beyoncé e cia. Mulheres fortes sempre me fascinaram, mas antes eu tinha vergonha de dizer que gostava de algumas coisas. Hoje eu me dou conta que os motivos estavam diretamente relacionados à minha formação roqueira e que podem ser resumidas em dois pontos:

1- O rock é extremamente machista
2- O meio roqueiro é tão arrogante que chega a ser ridículo

Rock é um estilo musical cujo protagonismo é masculino. Claro, há movimentos como o Riot Grrrl onde predominam bandas formadas por minas e existem mulheres maravilhosas em bandas clássicas - como Joan Jett, Debbie Harry, Kim Gordon, Kim Deal, Patti Smith, Nico, mas os homens são dominantes.. Mas faça uma lista das suas dez bandas preferidas e veja quantas delas possuem pelo menos uma integrante ou são formadas por mulheres. E a resposta pra isso não é difícil de chutar: no imaginário coletivo rock é coisa de macho.

Por que não colocar uma mulher estuprada na capa de um disco?
Nem vou entrar na discussão sobre misoginia e objetificação das mulheres no rock porque isso aí rende mestrado e doutorado (e se for problematizar classe, raça e orientação sexual porque aí é que danou-se). Na cultura roqueira as mulheres aparecem predominantemente como objeto, não como sujeito. Tem Hendrix nesse clipe assustador dizendo pra uma mulher que tá cansado de perder o tempo dele e que ela será toda dele. Há toda uma lista de canções, videoclipes, capas de discos em que as mulheres são endeusadas, infantilizadas, violentadas ou são apenas objeto decorativo. Quando se fala em sexo, drogas e rock'n'roll esse sexo não é apenas hétero - o que em si já seria um problema - é um sexo onde a mulher predominantemente é passiva.

Quando era adolescente os Raimundos estouraram com disco cheio de músicas horrorosas e com um hit dizendo que queria ser o banquinho da bicicleta pra ficar perto da vagina. Os Garotos Podres tinham uma música sobre um cara que era procurado pelo estupro "de uma mina cabaço" e isso não era condenado moralmente, ao contrário, ele era o cara "mais punk que eu já conheci", dizia a letra. Hoje eu me dou conta do quanto tudo isso é ofensivo e problemático pra pessoas nessa idade, quando sua personalidade está em formação e você não tem muito filtro. Porque adolescentes querem aceitação e você não quer ser a chata que reclama da letra da música, que não tem senso de humor. Ironicamente a subcultura em que me refugiava para poder ser eu reproduzia os mesmos valores machistas e misóginos dos quais eu tentava fugir. Quem me conhece sabe o quanto eu sou perua e aprecio uma montação. Mas durante muito tempo eu evitei o divonismo porque tinha medo que me achassem fútil. Um dia, quando eu já havia superado essa bobagem, um rapazinho com quem eu estava flertando numa festa chegou em mim e disse que eu era "bonita demais" pra gostar daquele tipo de música. Ele achou que tava me elogiando. Eu respondi que ele era bonitinho, mas ordinário e fui pegar outro. Não sou obrigada.


As mulheres na sociedade em geral já não são levadas a sério e no rock não é diferente. O tempo todo você pode ser intimada por alguém que nem te conhece para provar que você conhece a música, que merece frequentar determinado espaço ou usar a camiseta da banda X. Sim, você pensa, era só o que faltava, ter que fazer vestibular pra ouvir música (o que nos leva diretamente ao ponto 2 deste texto). Era o que eu fazia. Talvez seja o que várias meninas jovens estejam fazendo agora: estudando bandas e discografias pra provar que são boas roqueiras. Embora rapazes também façam isso (tenho um ex que chega ao cúmulo de saber aniversário e signo dos integrantes de sua banda preferida), dificilmente um cara irá desafiar outro homem no rolê a dizer se ele pelo menos conhece algum disco da banda cuja camiseta está usando, como ilustra esta matéria imbecil.


Diante de tudo isso não é difícil entender porque quando mais feminista eu fui ficando, mais me distanciei do rock. Em outras palavras: foi me dando bode. Toda vez que eu me lembro que ao arrotar meu conhecimento musical pra conseguir aprovação de homem ouvi: "nossa, você manja mesmo" e fiquei feliz com isso sinto uma vergonha terrível. Hoje eu tenho uma bolsa com estampa dos Ramones (uma das minhas bandas preferidas) e se alguém vier me inquirir sobre meu conhecimento sobre eles eu vou mandar à merda e dizer algo como "não tenho que te provar nada, otário". Sim, porque se tem outra coisa que me deu e me dá um bode gigantesco é que roqueiros se supõe superiores ao resto da humanidade simplesmente por gostar de rock quando são tão tapados, preconceituosos e superficiais quanto todo o resto.
Cê jura, fio?

Existe um combo roqueiro padrão, que é o fã de rock-cinema-séries. A pessoa raramente lê um livro/jornal/site de notícias, viu Laranja Mecânica e meia dúzia de filme cult e se acha o suprassumo da intelectualidade porque não assiste BBB ou não ouve funk. Não aguento. Tudo bem, é ok ser desse jeito quando você é adolescente porque  nessa fase se espera que sejamos ridículos, mas permanecer assim depois de uma certa idade não é legal, migs. Porque não ver tevê aberta não te faz intelectual, assim como ouvir funk não faz de ninguém um alienado. Semanas atrás foi Dia do Rock e ainda tem homem de 40 anos dizendo "isso é rock de verdade, não essas porcarias que vocês ouvem". Ou "camiseta dessa banda virou modinha". Ou conhecendo mais sobre a música e cultura estudunidense/britânica (porque são as pátrias do rock) e nada de América Latina. Não, você não é obrigado a gostar de cultura brasileira ou latina se não se identifica com ela, mas seje menas, né, colega? Isso não faz de você uma pessoa mega culta de gosto ultra refinado e todo mundo que não compartilha deles um idiota.

Para que tá feio, migo.
Outro dia vivi uma situação que ilustra tudo o que expus até agora. Eu estava numa festa na casa de uma amiga e alguns dos convidados (homens) começaram a colocar música no Youtube na TV da sala (Bowie, Joy Division, The Cure, Smiths, artistas que eu particularmente gosto bastante). Eu estava mais interessada em conversar e nem me liguei no som, até que uma hora uma amiga começou a cantar esta música e tivemos a ideia de colocar o clipe pra dançar. Os caras estavam há horas comandando o som, mas como já estava meio vazio a gente achou que não teria problema dançarmos um pouquinho. Mas é claro que teve. Vejam a ironia: três mulheres que esperaram horas pra poder colocar uma música (cuja letra é precursora de toda uma onda feminista que se manifesta hoje na música pop) serem censuradas porque um cara (que tava ouvindo Joy Division uma hora antes) que se deu o direito de dizer que mulher controlando o som não escolhe música que preste. Claro que deu barraco, porque se tem uma coisa que eu não faço mais a essa altura da minha vida é engolir desaforo de macho. E claro que ficou feio pra mim, pra mulher barraqueira que poderia ter ignorado e não para o machistinha que poderia ter optado por calar a boca.

Na roqueiragem com meus amigos 
Respondendo à pergunta que meu marido me fez naquele dia, não, não deixei de gostar de rock (a título de curiosidade eu não sei qual o meu disco preferido dos Ramones porque não consigo decidir entre o primeiro, o Rocket to Russia, Road to Ruin, Mondo Bizarro e End of The Century porque eu amo muito essa banda). Mas penso é necessário pensar criticamente o mundo que a gente vive, a começar pelas coisas que a gente gosta. Senão fica fácil demais, não é, mes amis?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ufa, era trollagem!

Então o lançamento do Tubby era um hoax? Ufa, que bom saber. O aplicativo, anunciado como uma vingança ao bobinho Lulu, prometia revelar aos seus usuários detalhes íntimos sobre a conduta sexual das mulheres: se deu de primeira, se curte tapas, sexo anal ou se “engole tudo”. Os dois aplicativos levantaram intensos debates nas redes sociais e rodas de bar sobre privacidade, objetificação e machismo. Agora os criadores do app que nunca existiu dizem que se tratou de uma brincadeira, um protesto contra a objetificação e exposição da intimidade de outras pessoas. Ah, cês juram? 

Bom, primeiro deixa eu ir lá fora esmurrar meu saco de areia durante 15 minutos até passar a minha raiva porque era só o que me faltava ozômi querendo dar lição sobre objetificação e exposição da intimidade e tentar colocar tudo no mesmo balaio de gato, porque até onde eu chequei as vítimas dos revenge porn que tiveram suas vidas arruinadas eram todas mulheres. Que bom que não teremos mais aplicativo que de cara condenava as mulheres que se recusaram a participar acusando-as de ter medo do que haviam feito “no verão passado”! Agora voltemos à programação normal de ser objetificadas em tudo e o tempo todo, só que sem aplicativo.

Como se as mulheres nunca tivessem sido avaliadas de acordo com a sua conduta sexual, com o número de parceiros ou com as coisas que gosta de fazer na cama, como se não fossem divididas entre mulher pra namorar/casar e vadias/putas/pra uma noite só. Boqueteira, engole tudo, dá a bunda, deu de primeira, safada, todo mundo já pegou, rodada, vadia, piranha, depois reclama que é estuprada. Encalhada, mal-amada, mal-comida, isso é falta de pica, deve estar de TMP, deve estar menstruada, deveria ser estuprada. E aí gostosa! É gostosa, mas fica se exibindo, deve ser puta, não se vestiria assim se não quisesse chamar a atenção dos homens, depois reclama se é estuprada. É gata e AINDA é inteligente. Uma mulher daquela não precisa nem saber escrever. É inteligente, mas devia se arrumar um pouco, né? Mulher sem vaidade não dá! Sai daqui sua gorda nojenta. Depilação é questão de higiene. Deixar o cabelo ficar branco é ser relaxada. Mulher de salto é outra coisa. É fútil, só pensa em dieta, academia e shopping. Mulheres, coloquem uma coisa na cabeça de vocês, nós homens ________________________________ (insira aqui qualquer cagação de regra sobre como você deve conduzir a sua vida). Já deu pra todo mundo, não dá pra namorar uma mulher dessas, é pedir pra ser corno. É muito puritana, depois reclama que é traída. Mulher só pensa em casamento, é por isso que os caras fogem. Mulher tem que ser delicada, mulher tem que ser sexy sem ser vulgar. O homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço. Mulher não serve pra ser chefe. Um monte de mulher trabalhando junta, tinha que dar briga. Deu o golpe da barriga. Deu o golpe do baú. Pra que teve filho se vai trabalhar o dia todo? Tem filho depois fica cobrando pensão. Não são direitos iguais? Sai dando por aí e depois quer abortar. Sai dando por aí e depois joga criança no lixo. Sai dando por aí e depois quer que o governo sustente. Na hora de fazer não gritou. Não se dá o respeito.

Assim como uma garota ao fim de um pornô gang bang eu olho para os criadores do app fake, exausta, fodida e com a cara esporrada e digo: obrigada, por esta valiosa lição sobre objetificação, por colocarem numa linguagem que nós mulheres somos capazes de entender. Era trollagem, ufa!
Agora as mulheres podem voltar à rotina normal de julgamentos que só partem da sociedade e da cultura machista.

domingo, 24 de novembro de 2013

Em defesa do Lulu


Na primeira vez que ouvi do Lulu achei idiota, não ofensivo. Um aplicativo em que mulheres avaliam os homens dando notas e adjetivos sob a forma de hashtag. Pareceu-me bobo, adolescente. Imaginei algo muito mais explícito do que realmente é, que fosse falar de tamanhos de paus, gostos sexuais pouco ortodoxos, broxadas, daí em diante. Não resisti à curiosidade e entrei. E pra minha surpresa, achei divertidíssmo. Não era nada do que eu pensava.

Pra começar, o tal aplicativo que só teoricamente só poderia ser baixado por mulheres pode ser baixado por qualquer um. O site de download não perguntou meu gênero e você entra pelo login do Facebook. Ou seja, qualquer um com uma conta nessa rede pode entrar. Não dá pra levar a sério. Além disso, muito mais recatado do que eu imaginava. As avaliações não se restringem a sexo e podem ser feitas por pessoas com diferentes relações com o rapaz em questão: pela mulher interessada naquele cara, pela namorada/ficante atual, ex-namorada/ex-ficante e amiga. As perguntas e os itens avaliados são selecionados de acordo com a categoria de quem responde.

Os perfis são avaliados por uma série de critérios e quem avalia não é obrigada a responder todos os itens, que incluem perguntas sobre senso de humor, educação, caráter, comportamento, inteligência, e sim, beleza física e sexo, mas nada de tamanhos de pirocas e notas pra práticas sexuais, pra minha total decepção.

Assim que você loga um painel de perfil de amigos do Facebook aparece na sua tela e as fotos dos que possuem avaliações Minha segunda surpresa foi saber que o site mantém muito mais avaliações positivas que negativas. O site gera uma nota média pros avaliados somando todos os critérios e esta nota aparece sobre a foto do perfil. Aliás, dois dos meus amigos que tinham recebido avaliações eram gays, tinham recebido avaliações de amigas, descritos como pessoas gentis e inteligentes.

Mas vamos aos hétero. Mais uma surpresa. Não tinham sido meus amigos mais bonitos e populares que tinham recebido reviews, mas homens fora do padrão de beleza e em geral muito tímidos e reservados e que na maioria das vezes recebiam elogios de pessoas que já tinham ficado com eles, sobre serem educados, cheirosos, inteligentes, atenciosos e sim, beijarem bem e serem bons de cama, o tipo de coisa que em geral as mulheres contam umas pras outras sobre homens com quem já ficaram, estão ficando ou pretendem ficar. Coisas do tipo como responder mensagens rápido, ligar no dia seguinte, dormir de conchinha, se a pessoa fica e some, se sabe cozinhar e sim, o tamanho do pau, porque mulheres hétero em geral adoram falar de tamanho de pau de quem já pegou, tá pegando ou quer pegar.

Sim, passei a tarde olhando os rewiews das pessoas que eu conheço e me diverti muito. Porque é algo muito bobo mesmo. As críticas são mais sobre comportamento do que qualquer outra coisa: ser chato, crianção, muito vaidoso, contar piadas ruins, ter amigos “losers”, demorar pra tomar iniciativa ou notar interesse de uma mulher ou, ao contrário, ser inteligente, divertido, carinhoso, gentil, não ter vergonha de ser fofo, saber beber sem cair, respeitar as mulheres, se é legal com os pais da mulher que está saindo, se é responsável, se saber se virar sozinho seja pra se alimentar ou cuidar do espaço doméstico. Mas mesmo assim eu fiquei contente ver amigos meus recebendo elogios, saber que são considerados legais e/ou gostosos pelas pessoas que já ficaram com eles. E achei engraçado descobrir algumas coisas porque eu gosto de fofoca picante, me julga aí.

Trocando em miúdos, é indiretamente um aplicativo de paquera. Pra saber coisas sobre o cara que você está interessada é legal e tem pegada, talvez até usar isso pra puxar papo. Pra saber se outras mulheres falam bem de pessoas que você tem interesse ou mesmo dos seus amigos. Claro que tem gente que pode usar pra vingancinha. Mas até os comentários ruins estão sujeitos à avaliação, você pode responder se aquilo é verdade ou não, caso um conhecido seu esteja sendo injustamente difamado. Mas a verdade é que as avaliações de ex-ficantes ou ex-namoradas são em geral positivas, principalmente no temido quesito sexo.

Entretando o que me chamou a atenção sobre o Lulu foi a ~polêmica~ envolvendo o aplicativo, que seria uma ferramenta para objetificar os homens, que as mulheres estariam fazendo a mesma coisa que os homens fazem, que se houvesse um aplicativo semelhante para avaliar as mulheres “as feministas” estariam revoltadas e organizando protestos.

Pra começar, já existe um aplicativo que avalia as mulheres e as classifica as mulheres, chama-se vida. As mulheres são objetificadas o tempo todo. Nós nos acostumamos com concursos de misses, com musas da torcida, furacões da CPI, dançarinas de palco, com as mulheres seminuas na publicidade, com atletas de uniforme sexy, com a banalização de intervenções cirúrgicas para fins estéticos, com a ideia de que precisa sofrer para ficar bonita, com a ideia de que mulher precisa ser bonita ou no mínimo se esforçar pra ser bonita, com a imposição de padrões de beleza extremamente excludente.

Mas não é só isso. Nós vivemos numa sociedade que monitora nossa conduta sexual, que cobra que nos casemos e tenhamos filhos e que ensina às próprias mulheres a se verem como prêmios, a se objetificar, a objetificar as outras mulheres chamando-as de vagabundas, periguetes, vagabundas, rodadas, um mundo que separa mulher “pra casar”, que acusa mulheres se serem interesseiras, que julga o caráter e/ou a competência das mulheres dependesse do número de homens que quem ela se relacionou ou se relaciona.

As feministas estariam indignadas se houvesse um aplicativo pra avaliar mulheres? Ah, gente, por favor, né? Alguém aí lembra como foi que o Facebook foi inventado por um cara que tinha se vingado da namorada a expondo num blog? Que o Facebook no começo era pra homens avaliarem a aparência de mulheres? Alguém aí esqueceu que nas últimas semanas três jovens mulheres, duas menores de idade, se suicidaram porque homens em que elas confiaram compartilharam vídeos íntimos delas? Já esqueceram da Fran, que largou emprego, faculdade e que não consegue sair na rua porque a vida dela virou um inferno? Vocês esquecem todos esses sites de pornô amador?

É ofensivo e é uma estupidez comparar um aplicativo com a opressão que todas as mulheres sofrem todos os dias, dizer que estamos agindo igual aos homens. Primeiro porque não estamos julgando o caráter deles baseados no número de parceiras sexuais, não o ridicularizamos por fazer na cama coisas que nós gostamos que eles façam ou por coisas que nós gostamos de fazer. Sim, há mulheres que dão importância à coisas que eu pessoalmente considero uma bobagem, como o cara pagar a conta ou ter um carrão, mas eu não culpo essas mulheres por pensarem desse jeito, porque nós somos julgadas de acordo com o tipo de cara que conseguimos arrumar e somos ensinada que se um cara quer te conquistar ele tem que pagar a conta.

Leva tempo pra se libertar disso. Mas se o Lulu fosse um aplicativo de transformar homens em objetos, não estaríamos preocupadas em saber se o cara é engraçado, inteligente e respeita as mulheres. O grande problema do Lulu é expor algo que é insuportável para mentalidades machistas que é o fato de que mulheres gostam de sexo e falam sobre isso. E que quando estão interessadas em alguém elas querem saber se o cara tem uma boa fama porque elas pretendem fazer sexo com eles. Nós nos acostumamos a ver o sexo como uma coisa que as mulheres fazem pra agradar os homens. É por isso que choca. Porque mulher não pode falar de sexo em público, porque mulher que gosta de dar não presta, mulher que não presta não casa e deus o livre uma mulher não casar, porque todo o sentido da existência da vida de uma mulher é arrumar um marido.

Ironicamente, essa alegada objetificação é opcional, já que só podem ser avaliados perfis do Facebook e qualquer pessoa que não quiser ser avaliado pode retirar perfil do aplicativo. Não há nada parecido com isso na Internet ou na vida para que as mulheres não sejam objetificadas ou vítimas de porn-revenge.Ofensivo é mulher não poder falar de sexo, ofensivo é uma mulher chamar a outra de periguete, ofensivo é aceitar tranquilamente a objetificação das mulheres e sair em defesa dos homens e contra as mulheres numa assunto que é uma bobagem e que não chega nem perto do tipo de julgamento que todas as mulheres são obrigadas a enfrentar ao longo de suas vidas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma linda mulher ou Como ensinar a uma geração todos os clichês de gênero e submissão



Nos últimos meses acompanhei algumas discussões na Internet sobre a febre literária do momento 50 Tons de Cinza. No começo pensei que era uma sacanagenzinha light pra um público caretinha, por isso não me despertou o menor interesse. Contudo, depois li alguns comentários e fiquei sabendo que o livro é um desses libelos machistas de deixar qualquer feminista de cabelo em pé. 

A história, pra quem ainda não sabe do que se trata, é um desses contos de fadas modernos, em que a mocinha conhece um milionário bonitão e no fim os dois vivem felizes para sempre, só que no meio disso tem umas paradas sadomasoquistas leves, pra não chocar os leitores. Só que nesse ínterim o rapaz cobre a moça de presentes caros e ela, que até então era virgem, vai cedendo às praticas sexuais pouco ortodoxas que o namorado curte pra que ele não enjoe dela, como aconteceu com outras mulheres que vieram antes. 



Ou seja, é um amontoado de clichês reforçando a ideia do homem rico que cobre a mulher de presentes, de que as mulheres estão sempre competindo umas com as outras, de que vale a pena tudo na cama desde que seja por amor. De repente me veem na cabeça milhares de manuais do sexo lacrado de revistas femininas que ensinam como enlouquecer seu homem na cama para que ele se case com você. No fundo a ideia é que o sexo não é algo que a mulher faça pelo seu próprio prazer, mas porque desse jeito vai conseguir amarrar um cara.


Li em algum lugar que estão filmando, o que me fez pensar que há alguns filmes que marcam as gerações em termos de educação sentimental e de educação de papeis de gênero. Pra mim, o filme que ensinou a minha geração, nascida nos anos 80 e que cresceu nos anos 90 foi Uma Linda Mulher. Quem na faixa dos 30 anos não se lembra de Julia Roberts se esbaldando nas lojas na Rodeo Drive ao som de Pretty Woman e da cena em que ela se vinga da vendedora esnobe? Na época eu não prestava muita atenção, mas para além da trama estapafúrdia do conto de fadas entre a prostituta de lindíssima e o milionário bonitão carente havia muita coisa que estava educando as meninas da minha geração a respeito do que é ser mulher. Revi o filme esses dias. Dei umas boas risadas, mas em geral me deu vontade de chorar.

São tantos clichês de gênero que eu não sei nem por onde começar. A prostituta de rua eu em dois dias frequenta ambientes de alta classe reforçando a ideia de que a mulher deve ser uma dama fora de casa e uma puta na cama; a euforia no momentos de fazer compras reforçando a ideia de que mulher gosta mesmo é de fazer compras. Embora a personagem seja uma profissional do sexo, ela nunca parece gostar muito da coisa, o que me lembra o mito difundido pelos mascus que mulher não gosta muito de sexo e só o faz como meio de obter amor. Não acho que a vida de uma prostituta deva ser fácil, mesmo quando o seu cliente é um bonitão super cavalheiro, afinal continua sendo trabalho. 

Mas me incomoda sobremaneira o fato de ela só decidir largar a prostituição depois que ele diz que ela tem potencial, a incapacidade dela perceber seu próprio valor sem que os diversos homens que estão na trama façam isso por ela: o velhinho rico, o gerente do hotel, o próprio personagem do Richard Gere. É a ideia do complexo de Cinderela: uma hora vai surgir um homem que resolverá todos os seus problemas e a partir de então a única decisão que uma mulher terá que tomar na vida será que sapato combina com aquele vestido.

E a ópera, gente? Digamos que você seja um ricaço que contratou uma prostituta gata para ficar com você durante uma semana. O que você faz? Vai para o hotel compensar seu investimento ou coloca a moça num avião e a leva para assistir à ópera? É uma demonstração de poder e riqueza tão gratuita que chega a ser cômico, mas depois eu fico pensando no papel de educação da cena. Tudo bem, querida, eu até posso ter me apaixonado pela sua beleza e dotes de cama, mas, bitch, please, vê se aprende umas coisinhas da cultura super refinada que eu consumo pra gente ter o que conversar.
Contudo, o que me deixa mais chocada é como em poucos dias de convivência, uma mulher que no mínimo deveria saber se defender sozinha – porra, ela faz ponto nas ruas de LA! – se torna uma criaturinha indefesa porque tomou um banho de loja e arranjou um macho para cuidar dela. A forma como ela reage completamente passiva diante dos assédios do escrotossauro amigo do cliente-amante é revoltante. Uma mulher com essa história no mínimo deveria saber gritar, dar um soco na cara, uma navalhada na cara, sei lá. Reage, filha! Mas não. A mulher só não é estuprada porque de novo o príncipe encantado surge e a salva.

Por fim, temos um final feliz e o final feliz é o que? Casamento! Porque o amor não basta. A proposta dele, de levar ela com ele e montar um apartamento, é bem paternalista, é verdade. Mas nada me choca mais depois do festival de clichês machistas que vimos até aqui. E convenhamos que pra duas pessoas que se conheciam há uma semana até que é bem razoável. Mas aí o que acontece? Ela fica ofendida e ele tem que reencenar o papel do príncipe encantado no cavalo branco salvando a princesa, como se todos os problemas e objetivos da vida se realizassem com o matrimônio.

Daí a gente olha pra mulheres de 30 anos que são inteligentes, independentes e lindas e que estão aí sofrendo porque ainda não casaram e não é difícil entender por quê. A gente é ensinada desde que nasce que só vai ser feliz depois que o conto de fadas acontecer com a gente!
É por essas e outras que quando for mãe não contarei nenhum.