quarta-feira, 23 de maio de 2012

Mês das noivas, mês das mães: ser mulher é só isso?

Maio é o "Mês da Mulher" do Discovery Home and Heath. Podem me chamar de paranoica, mas não me parece coincidência que o mesmo mês dedicado às noivas, seja também o mês em que se comemora do dia das mães. No canal mencionado, isso significa uma infinidade de programas dedicados a esses dois supostos pontos altos da identidade feminina: o dia em que você se casa e o dia em que você se torna mãe. O que me leva a crer que para o Discovery e para muita gente não importa o que você faça como profissional e como ser humano: você só será uma mulher completa e realizada quando tiver um marido e um filho.

Na semana passada eu fui ao casamento de uma amiga de longa data. Como nosso círculo social é composto de pessoas de mais de 30 anos, nossos encontros mais frequentes acabam se dando justamente nesses eventos. Mas de um tempo pra cá nosso meio tem passado por um verdadeiro "baby boom": além de alguns casais com seus lindos bebezinhos, havia uma amiga grávida, notícias sobre duas outras que estão gestantes e uma outra que está tentando engravidar. Nada contra. Mesmo. Eu mesma me casei vestida de noiva e entrei no salão (casei apenas no civil) de braço dado com o meu pai e gostei muito de marcar o início da minha vida em comum com a pessoa que amo com uma grande festa reunindo as pessoas que são importantes nas nossas vidas. Acho que ter filho deve ser uma das coisas mais bonitas da vida se você está realmente afim e fico muito feliz por amigos/amigas quando se casam ou se tornam mães/pais.

O que me preocupa é ver que para muitas mulheres casar e ter filhos ainda é um fim em si mesmo. Querer casar porque você "já passou de uma idade" e não porque você conheceu alguém que vale a pena dividir a vida. Ter filhos porque a natureza te deu um útero e não porque é seu desejo construir algo com quem você ama. Respeito mulheres que optam por uma "produção independente". Mas não é o que eu vejo nos círculos que frequento, formados por pessoas de classe média alta, financeiramente independentes e esclarecidas. As mulheres querem se casar porque querem ter filhos e, como o tempo está passando, tem que ser logo. A impressão que me passa é que o parceiro/pai é apenas um acessório. É nessas horas que vemos que o machismo prejudica aos dois sexos. Se eu fosse homem ia querer ser visto como uma pessoa, não como um marido/reprodutor em potencial. O resultado é que todos sofrem.

Durante o fim de semana do casamento eu devo ter ouvido umas 15 vezes a pergunta "E você, quando vai ter um filho?". Acho normal porque são pessoas que são minhas amigas e que possuem intimidade o suficiente pra me perguntar sobre esse tipo de coisa, inclusive porque já falei com elas sobre o assunto e há alguns meses andava considerando seriamente essa possibilidade. Mas depois me ocorreu que não há o mesmo interesse pra saber a quantas anda o meu doutorado, como está o meu trabalho, como anda o meu relacionamento com meu marido. Eu sou casada há quatro anos: ter filho é uma obrigação social e como decidi que por hora não é o que eu quero, isso automaticamente faz de mim uma mulher esquisita. (Se você esperar demais acaba não tendo, dizem).

Lembro que o ano em que fiquei noiva foi o mesmo ano em que entrei no mestrado. Embora estivesse muito feliz, sempre foi um incômodo perceber que a reação de amigos (homens e mulheres) era muito mais eufórica ao saber do meu noivado. Se já tinha marcado a data, escolhido o vestido. Temos um longo caminho a percorrer se como mulheres continuamos valorizando mais esses eventos do que quaisquer outros. O casamento é descrito como o dia mais importante da vida de uma mulher, a maternidade como o momento em que você realmente conhece o amor. E aí como ficam as solteiras? As que optaram por não se casar ou não ter filhos? As lésbicas? As estéreis? Estão condenadas a ter uma vida incompleta e infeliz?

Eu penso em ter filhos, mas se não tiver, tudo bem. Gosto de criança, acho que seria uma mãe muito legal. Não vai ser agora, só porque eu já tenho quatro anos de casada, só porque a minha família quer um bebezinho fofo ou porque eu tenho 32 anos e o tempo está passando. Eu tenho um doutorado pra terminar e eu me recuso a ser uma escrava da biologia. Pior é que quando eu digo isso, sempre tem alguém com conselhos "confortadores" do tipo "mas dá pra conciliar as duas coisas". Dar, dá. Mas quem disse que eu quero? 

Querer dar conta de tudo é uma das armadilhas que criamos pra nós mesmas: o mito da super-mulher. A que trabalha feito uma workaholic, trepa como uma atriz pornô, está sempre impecável como se fosse uma modelo, vai na academia, cozinha como a Nigella, cuida da casa filhos e maridos como se fosse uma dona de casa dos anos 50. Ninguém para pra refletir que ter filhos envolve escolhas e sacrifícios e que para isso você deve estar disposto a abrir mão de muita coisa, principalmente a mulher, que é que carrega e tem um vínculo maior com a criança pequena. E sabem, eu gosto muito da minha vida do jeito que ela está. Eu não sei se estou pronta pra abrir mão da minha liberdade e da minha vida boêmia.

A gente precisa aprender a dizer não.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Meu cabelo também é política


Eu estava na porta da sala conversando com meus alunos e alguém elogiou meu cabelo e os demais no grupo concordaram, disseram que o meu cabelo crespo, cortado num estilo quase black power não só é "muito estiloso", mas é "a minha marca". Um rapaz que estava no grupo me perguntou se eu nunca tinha pensado em alisar. Para a surpresa deles respondi que não só pensei, como passei mais de 10 anos alisando o cabelo com tudo o que havia disponível na indústria dos cosméticos: relaxamentos à base de amônia, escovas progressivas à base dde formol, secador, chapinha e mais uma infinidade de produtos que tenho medo até de lembrar. Manja henê? Aquela bisnaga preta usada para alisar cabelos afro? Já usei também.Isso me fez pensar o longo caminho que levei para aceitar o meu cabelo natural e como, para minha surpresa, passei a gostar dele como nunca havia gostado antes.

 Sou fruto de uma dessas misturas multiétnicas tão comuns no Brasil: mãe "branca" (ascedência portuguesa e espanhola) e pai "preto", filho de libanês com uma cabocla do interior do Amapá. Sou a mais velha de três filhos, um de cada cor: tenho a pele mais escura, enquanto meus irmãos estão mais pra brancos, mesmo assim com diferença de tonalidades. Minha irmã, branquinha como leite, saiu com os cabelos cacheados, meu irmão de cabelo liso como o da mamãe e eu, a pretinha da casa, com um cabelo que não se definia: grosso e ondulado, não fazia cachos nem alisava. Bom, pelo menos era isso que eu pensava antes de aprender a cuidar dele.

Desde pequena eu aceitei que meu cabelo era ruim. Nunca tinha parado para pensar no racismo embutido nessa expressão. Comecei a alisar pensando que era a única maneira de deixa-lo bonito, já que não possuía os belos cachos da minha irmã. Porque é isso que acontece: não somos ensinados a lidar com o que temos, mas com o que gostaríamos de ter. Então não é de se espantar frases como "ser mulher é passar a vida lutando contra o próprio cabelo". Nós queremos o cabelo da atriz global, da capa da revista, da amiga, da mãe, da irmã, da vizinha. E fazemos de tudo para tentar chegar naquele modelo que algumas privilegiadas têm de nascença. Pra mim o cabelo perfeito nessa época era o oriental: negro, liso, brilhante, cheio. Hoje eu continuo achando este cabelo muito bonito, mas aprendi a ver a beleza em outros cabelos e no meu cabelo.

Demorou muito tempo para eu perceber que a ditadura do cabelo liso faz parte de um sistema que institui uma verdade única e uma beleza única. E que nesse sistema - que inclui cinema, televisão, moda e publicidade - as mulheres negras consideradas bonitas possuem sempre alguma característica mais comum em pessoas brancas: narizes pequenos e afilados, olhos claros, cabelos lisos, muitas vezes clareados. Tyra Banks, Naomi Campbell, Rihanna, Beyoncé. No Brasil é muito comum que as poucas atrizes negras de destaque nas novelas apareçam de cabelo alisado, embora essas mulheres (Taís Araújo, Camila Pitanga, Sheron Menezes) optem por usar seus cabelos crespos fora das telas.

A mídia brasileira já dá a impressão de que vivemos na Suécia. Por mais bonitas que sejam Gisele Bundchen ou Grazi Massafera, não dá pra dizer que elas sejam típicas mulheres brasileira, com seus cabelos lisos, loiros, suas pernas longas e  bundinhas minúsculas. Agora imagine, querid@ leitor@, se você é uma menina morena/negra e as poucas pessoas na mídia que se parecem minimamente com você todas ostentam cabelos lisos e esvoaçantes que você não tem. Tudo bem, elas também não, mas você como adolescente, bombardeada pelo discurso de que "o importante é se sentir bem" ou "pra ser bonita tem que sofrer" vai fazer o que? Alisar o cabelo até o fim dos seus dias. Não é que eu não me achasse bonita como era antes. Mas porque eu tinha que encher minha cabeça de química e gastar rios de dinheiro só pra corresponder ao padrão do cabelo "mais bonito"? Por que eu não poderia ser feliz e me achar bonita de outro jeito? Foi só depois que percebi isso que decidi "voltar às raízes".

Felizmente, após os 30 anos eu decidi que já era hora de passar a vida enchendo a minha cabeça de produtos químicos cujos efeitos a longo prazo não são muito claros. Mas admito, foi uma luta. Porque o olhar para a beleza é algo que a gente treina e depois de anos me achando bonita de cabelo alisado eu passei meses para "me conformar" com a minha nova imagem. Honestamente, não pensei que fosse me achar tão bonita quanto de cabelo liso. Pra piorar, as pessoas ao redor não estão dispostas a ajudar. Quando comecei a deixar minha raiz crescer uma meia dúzia de pessoas me deu força (o apoio do meu marido foi fundamental), mas era comum que amigos me perguntarem o que estava acontecendo com meu cabelo e que estranhos me perguntassem por que eu não fazia progressiva. Mais de uma vez pensei em desistir.

Até que um belo conheci um cabeleireiro maravilhoso que me mostrou que eu tinha um cabelo muito bonito, só precisava aprender a cuidar dele. Descobri que tudo o que eu sabia desde a infância sobre pentear, lavar e cortar o cabelo estava errado, que o cabelo crespo requer uma técnica completamente diferente (outra hora eu conto uns desses segredos). Não vou esquecer nunca das palavras dele "Você não conhece o seu cabelo, o seu cabelo é muito bonito". Eu nunca achei que meu cabelo natural pudesse ser bonito. Mas para a minha surpresa, com um corte, produtos e cuidados adequados hoje eu tenho um cabelo sem química que vive recebendo elogios. Todo mundo comenta que ele tem personalidade, que é estiloso. Outro dia uma menina que treina boxe comigo me disse "Seu cabelo é lindo". E sabem, eu fiquei feliz por concordar.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Crítica: Melancolia - O fim do mundo como um grande alívio


Eu tenho uma relação de amor e ódio com Lars Von Trier. Amor, porque acho que ele é um diretor talentoso que faz belos filmes sobre como o ser humano pode ser vil e cruel (vide Dogville e Dançando no Escuro). Gosto dos filmes desses filmes serem centrados em personagens femininas que estão em busca de realizar algo que não é o sonho do amor romântico. Elas estão tentanto sobreviver e fazer as coisas de outro jeito (outro filme que eu gosto dele é Os Idiotas). Como diria o Bukowski, a vida é uma desgraça, a diferença é o modo como você se arrasta em meio à merda. E é aí que começa o meu problema com o Von Trier: pra sobreviver em meio ao caos, as personagens algumas vezes recaem em estereótipos machistas: a mulher que sofre na mão da cidade inteira e pra se vingar chama sua família de gangsters (todos homens) para lhe socorrer ou a mulher que está disposta a sacrificar a própria vida pelo filho (realizando a sua função de estar no mundo na maternidade).

Enfim, é um diretor que me agrada muito em certos aspectos e me deixa de orelha em pé em outros. Se o filme anterior dele, Anticristo, está no topo da minha lista como "o filme mais misógino de todos os tempos", em Melancolia temos um filme arrebatador sobre depressão e essa sensação de mal-estar no mundo.

O filme se passa durante um casamento realizado numa mansão às vésperas de um planeta chamado Melancolia se colidir com a terra. Alguns astrônomos dizem que o temor é infundado e que o fim do mundo não irá acontecer, mas outros advertem à população para se preparar para o pior. Nesse clima tenso temos uma história dividida em duas partes, cada uma contada pela perspectiva de uma irmã. A primeira é centrada em Justine, a noiva, interpretada por Kirsten Dunst. A segunda, por sua irmã mais velha, Claire.

Não vou mentir pra vocês. A primeira parte do filme é muito, muito chata. Inspirada lá nos tempos do Dogma 95, temos aquela câmera tremida que não pára em lugar nenhum, diálogos sem sentido, como se alguém chegasse filmando o meio de uma conversa com uma câmera de mão numa festa e pegasse um momento bem tenso. A ideia é essa mesma. Impossível não lembrar de Festa de Família, de Thomas Vinterberg, aliás. Mas há um sentido, claro, para que essa parte do filme seja assim. Repare na noiva. Como ela está feliz no carro, mesmo atrasa para a festa. Repare no seu vestido, no seu cabelo. Agora veja como ela vai se decompondo visualmente e psiquicamente ao longo dessa primeira parte. Ela é linda, rica, ela tem um noivo lindo e apaixonado. Ela é boa no seu emprego. E ainda assim ela tem vontade de morrer. Se você já passou por uma depressão séria em algum período da sua vida não há como não se reconhecer. O tempo dessa parte do filme passa muito lentamente porque é assim que é percebido por uma pessoa depressiva. Algo que não acaba nunca. As pessoas ao redor, as risadas, a vida. Tudo deveria estar bem, mas você só tem vontade de desaparecer. Ou fazer algo que estrague tudo para que você possa sentir que ainda está no comando, que ainda está vivo.




O casamento é a última tentativa de Justine se adaptar a uma vida normal. Nós vemos na cara dela: eu posso fazer isso, posso ser uma esposa, posso festejar com minha família disfuncional, posso ter um emprego que odeio e conviver com pessoas que desprezo. Ninguém percebe o seu desespero. Ninguém percebe que esta é a sua última tentativa. Por isso o fim do mundo pode ser um grande alívio. Não apenas o fim da vida: o fim de tudo. É disso que se trata.

A segunda parte, que flui muito melhor, é centrada na irmã mais velha, Claire, interpretada por Charlotte Gainsbourg - que pra mim faz sempre papel dela mesma e faz sempre a mesma cara, mas por algum motivo há quem ache ela uma  boa atriz. Essa parte do filme propositalmente é mais ágil e tem mais sentido. Aqui vemos a vida de uma pessoa prática, que tem uma boa vida. Uma mãe que parece estar realizada na maternidade, que tem um casamento estável - o fato de ser milionária deve ajudar bastante também. Claire tem tudo a perder, ao passo que Justine, não. Então ela tenta se confortar com a fé cega de seu marido na ciência de que a passagem do planeta será apenas próxima da terra, não haverá colisão.

Pra mim essa é a grande sacada do VT nessa parte do filme: a fé cega não é em Deus, é na ciência. Sobre isso o marido, interpretado por Kiefer Sutterland (WTF?!) diz a melhor frase do filme: "Melancolia passará sobre nós e não causará nenhum impacto". No fundo, essa é a esperança de todos nós.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Como é que é?

Governo recua em projeto que multa empresa que paga salário menor a mulher

Publicidade
GABRIELA GUERREIRO
DE BRASÍLIA 


O governo desistiu de sancionar o projeto que equipara os salários de homens e mulheres que ocupam as mesmas funções em uma empresa.
Agora o texto vai ser rediscutido no Senado depois de ter sido aprovado pelos senadores esta semana. O líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), apresentou recurso para que o texto volte a tramitar na Casa.
O regimento interno do Senado prevê que, se um projeto é aprovado em caráter terminativo em uma comissão, segue direto para análise da Câmara ou para sanção presidencial se não houver recurso assinado por pelo menos oito senadores (10% do total de parlamentares).
Jucá teve o apoio de nove senadores no recurso, o que vai fazer com que o texto volte para análise da Comissão de Assuntos Econômicos da Casa.
A proposta, que havia sido aprovada em caráter terminativo pela Comissão de Direitos Humanos do Senado, prevê que a empresa que pagar salário inferior às funcionárias pague a elas uma compensação de cinco vezes a diferença de remuneração pelo período em que trabalhou.
Atualmente, o empregador que pagar salário menor do que o do homem para uma mulher na mesma função pode ter de pagar ao Estado multa que varia de R$ 80,51 a R$ 805,09, segundo a CLT.
O líder do governo foi procurado por empresários que o convenceram de que a equiparação dos salários seria facilmente questionada na Justiça, provocando uma enxurrada de ações.
"A gente quer que a comissão amarre melhor o texto para não dar margem a processos", afirmou Jucá.
Para advogados, caberá às mulheres que fizerem a queixa comprovar a discriminação por gênero, algo que, segundo eles, não será fácil de fazer diante dos outros elementos que podem justificar a diferença.
A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) chegou a anunciar que a presidente Dilma Rousseff sancionaria o projeto na próxima terça-feira, em meio à comemoração do Dia Internacional da Mulher. Mas o governo recuou para reescrever o texto antes de aprová-lo em definitivo no Congresso.
NÚMEROS
O salário das mulheres no Brasil é 28% menor do que dos homens, de acordo com levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2011, elas receberam em média R$ 1.343,81 enquanto eles ganharam R$ 1.857,63.
Dados da pesquisa de emprego do instituto mostram que a carga horário do sexo feminino também é, em média, menor do que a do masculino. As mulheres trabalharam 39,2 horas, na média, no ano passado ante as 43,4 horas do homem.
As informações foram compiladas pelo IBGE em homenagem ao Dia da Mulher.
Estudo do Banco Mundial apresentado na Câmara também indicava a diferença. De acordo com a entidade, para cada US$ 1 recebido por trabalhadores homens, US$ 0,73 é pago a mulheres na mesma função.

Fonte: Folha.com

Depois de voltar atrás na Lei da Palmada, o governo também voltou atrás na lei da igualdade salarial. Oi, Senador Romero, era isso que a gente queria de Dia das Mulheres, não florzinha e bombom, viu?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Somos todos feministas - até você que acha que não*

 
Somos todos feministas. Mesmo que você aí, que também é mulher, ache que feministas são mal-amadas que queriam ser homens. Ou que prefira mesmo que os homens paguem a conta, que abram a porta do carro e te puxem a cadeira no restaurante. Mesmo você aí que é homem e acha que tudo bem ter um dia internacional da mulher, se os outros 364 são de vocês. Mesmo você que é muito moderno, mas que não lava nem a sua cueca.

Porque você aí que está louca pra se casar e ter três filhos, graças ao feminismo, vai escolher o seu marido e poder tomar pílula, pra não ter doze criancinhas ao invés de três. E você nem precisa renunciar ao seu nome de família se não quiser. A lei te permite ser casada e manter seu nome. Ou que seu marido adote o seu. E se não der certo, a sociedade não vai estampar na sua cara um rótulo de vagabunda porque você se separou. Você começa tudo de novo, porque você tem um emprego e não depende do sustento de seu marido ou do seu pai. E se deus o livre um dia um safado cometer alguma violência contra você, você pode ir a uma delegacia que trata especificamente esse tipo de crime. E se você pode dirigir, pode usar a roupa que quiser, estudar, votar, ir ao bar com suas amigas, dormir com seu namorado antes de casar (e sem ter que casar porque dormiu) e tantas outras coisas que mesmo quem é muito metida a tradicional não dispensaria fácil, saiba que se não fossem as feministas muitas dessas coisas demorariam a acontecer. Se é que aconteceriam.



E você aí que é homem e a essa altura pode estar pensando que muitas “conquistas” femininas na verdade favoreceram o homem, eu sinto dizer que você está se enganando. Porque se você acha bom que a mulher divida a conta no jantar, isso quer dizer que ela também escolhe o que vão comer. Se você acha que é ótimo dormir com alguém sem ter que casar, namorar, você sabe que corre o risco de também ser visto como um mero pedaço de carne. Se você quer muito ter um filho pra chamar de Júnior é bom saber se mulher que você escolheu quer ser uma feliz mamãe de uma penca de filhinhos. Porque ela também trabalha, porque ela também está preocupada com a carreira e pode ter outras prioridades que te assustem. E por fim, se você acha que tudo isso vale pras outras menos pra sua mãe, porque afinal, a gente tende a achar que mãe não é mulher, saiba que um belo dia ela pode acordar cansada da vida de rainha do lar e ir a luta. E aí ela vai dizer que até lava a sua roupinha, mas que você comece a arrumar suas coisas e ajudar em casa.  A minha mãe fez isso, não pense que não acontece. Mas não fique triste. Porque quando você não tem mais de ser o provedor da casa, nem o homem forte que não chora nunca. Porque provavelmente a mulher que você encontrar vai querer ser sua companheira e construir uma vida com você.
  

Eu sei, você que também é feminista como eu, deve estar achando que eu pirei. Que as mulheres continuam sendo espancadas, rotuladas como piranhas ou mal-amadas, continuam ganhando menos, continuam cumprindo a dupla-jornada, que ainda guiam suas vidas por valores questionáveis, que muitas ainda julgam umas às outras e perpetuam o machismo. É verdade. É por isso que a gente tem que lutar todos os dias. O feminismo já conseguiu muita coisa, mas temos que diariamente combater nossos próprios preconceitos. Os nossos e os de quem está à nossa volta.

Isso quer dizer que além de palavras de ordem, temos que chamar nossos pais, irmãos, namorados, maridos, amigos do sexo masculino, pras tarefas domésticas. Não pra “eles verem o que é bom”, mas porque é justo que todos ajudem. Lutar diariamente contra o machismo é evitar dizer que “se tal coisa já é feia em homem, em mulher é pior”. Ou que é a mulher que se preocupa com a casa e com a família, que temos “mais jeito” pra essas coisas. Nós não somos seres superiores e nem tampouco os homens são seres que precisam que sejamos sempre mães deles. Nós temos que lutar pela igualdade. De direitos, de tratamento e de convivência social. Sempre. Todos os dias do ano, todos os dias da vida.

*Originalmente publicado em 08/03/2006 no falecido blog Oficina Irritada 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dois motivos para comemorar

Na semana em que comemora-se o Dia Internacional da Mulher, as brasileiras ganham dois motivos para comemorar: a aprovação da lei que pune as empresas que pagarem salários menores às funcionárias contratadas para executar a mesma função que homens e eleição da primeira mulher a presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O primeiro representa um avanço na luta por uma antiga demanda feminista: a igualdade salarial entre gêneros. A segunda chama atenção para a pouca representatividade feminina no sistema político partidário.

O texto aprovado ontem prevê que o empregador que remunerar de maneira discriminatória o trabalho da mulher terá que pagar multa correspondente a cinco vezes a diferença sobre os vencimentos oferecidos aos homens durante todo o período da contratação. O projeto foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos do Senado (CDH), pelas comissões de Constituição e Justiça (CCJ) e de Assuntos Sociais do Senado (CAS).

Embora a Constituição e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já proíbam a diferença salarial entre homens e mulheres, prática até agora era bastante comum em diversas empresas do país. Espera-se agora que a proposta não se transforme em letra morta e com a ameaça de punição as empresas passem a aplicá-la (até porque é essa a língua que os empresários costumam entender melhor: a do bolso). Infelizmente, as diferenças salariais entre gêneros não se restringem ao Brasil. Há três anos o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou uma lei semelhante em seu País.

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes da Rocha foi eleita  substituirá o ministro Ricardo Lewandowski no mais alto posto da Justiça Eleitoral do País por seis votos a um e já terá como principal desafio coordenar as eleições municipais de outubro. A ministra teve uma atuação importante em defesa da Lei Maria da Penha e na Lei da Ficha Limpa.

Em seu primeiro discurso depois de eleita, a ministra lembrou os 80 anos do voto feminino no Brasil e que hoje as mulhures correspondem a 52% do eleitorado nacional. Apesar disso, ainda existe pouca representação feminina em cargos públicos. A posse da ministra deve ocorrer no próximo mês.

terça-feira, 6 de março de 2012

Feijoada Vegana

Atendendo a pedidos, depois do enorme sucesso do prato servido no meu aniversário, compartilho com vocês minha receita de feijoada vegana (que diferente da vegetaria, não leva nenhum produto de origem animal). Embora eu não seja vegetariana/vegana, sou uma grande admiradora e simpatizante dessa culinária que é também uma postura política, além de ser saudável e deliciosa.

A receita abaixo serve bem umas 20 pessoas e deve custar no máximo uns 20 reais em ingredientes (ou seja: R$ 1 por pessoa!). Acho que levei umas três horas preparando tudo, mas se tiver mais de um pra picar os ingredientes o tempo deve cair bastante.

O que você vai precisar:
1 kg de feijão preto
1 lata de salsicha de soja
1/2 kg de tofu seco ou defumado
1 abóbora pequena
1 batata doce grande
2 cebolas picadas
2 sachês de caldo de legumes
1/2 côco maduro em pedaços
alho e temperos diversos à vontade
Uma panela bem grande

Coloque o feijão de molho na noite anterior. Lave bem e escorra a água que tiver soltado durante a noite. Cozinhe durante 20 minutos na pressão com uns quatro dedos de água cobrindo o feijão (se você só tiver uma panela de pressão normal, eu aconselho cozinhar em duas levas). Coloque numa panela maior e junte a salsicha e o tofu picados, a abóbora e a batata doce. Se o feijão ainda estiver meio durinho, não se preocupe porque ele vai continuar cozinhando até a batata e a abóbora amolecerem. Quando estiverem moles, junte o côco picado. 

Numa panela separada frite a cebola picada no óleo de sua preferência (soja, milho, canola, oliva). Junte o alho picado (no dia que eu fiz a minha feijuca não tinha) e outros temperos que você gostar, como cominho ou pimenta do reino. Junte um copo de água, deixe ferver um pouco e junte à feijoada. Acrescente os envelopes de caldo de legumes e prove se está bom de sal (não esqueça que os caldos já são salgados). Se necessitar, acrescente um pouco mais de sal. Deixe cozinhar mais uns 10 minutos e apague o fogo. O ideal é esperar uns 10 minutos antes de servir porque assim pega mais o tempero.

Para acompanhar essa quantidade de feijoada usei 2 copos grandes de arroz integral, 2 maços de couve e um quilo de farofa.

Se alguém aí testar, me avise se ficou boa. Mas podem ir com fé que é sucesso!